
Oficina Robert Doisneau
O Beijo da Câmara Municipal
Robert Doisneau ficou para a história em 1950. Muitos casais processaram o fotógrafo: asseguravam que eram eles que ali estavam.
O seu nome era Roberto Doisneau. Nascido nos arredores de Paris, em 1912 (dois dias antes do acidente do Titanic), foi precisamente na capital de França que se destacou.
Ainda jovem, começou a tirar fotografias pelas ruas de Paris a partir da década 1930. Um fotógrafo humanista, a apostar numa mudança social. Imagens modestas, mas lúdicas e irónicas; com misturas de classes sociais, em ruas, em cafés.
“As pessoas gostam das minhas fotografias porque vêem nelas o que veriam se parassem de correr e dedicassem tempo a apreciar a cidade”, dizia na altura Robert Doisneau.
Foi em 1950 que captou uma imagem que – mais tarde – espalhou o seu nome pelo planeta, ao tirar a fotografia intitulada ‘O beijo do Hotel de Ville’.
A revista Life publicou um artigo sobre o amor em Paris e pegou (e pagou) nessa imagem. Diversos casais asseguravam que eram eles naquela fotografia – e processaram Doisneau por causa disso.
Mas o (agora) famoso fotógrafo francês assegurava que o momento tinha sido encenado com Françoise Bornet e Jacques Carteaud, dois estudantes de teatro.
Uma revelação que acabou com a ilusão de milhões de pessoas: aquele momento teria sido genuíno, espontâneo.
Quer dizer, foi mais ou menos encenado.
Em 2017, a filha de Robert Doisneau, Francine Deroudille, explicou na BBC que, precisamente por causa dos direitos de imagem, o pai preferia usar amigos e jovens actores nas suas fotografias.
Nesse dia de 1950, o fotógrafo saiu para as ruas de Paris com os dois jovens estudantes de teatro e “deixou-os estar”. Seguiu-os, o casal fez o que quis, e Robert ia estando atento, captando tudo que achasse relevante.
Quando caminharam juntos, fotografou. Quando conversaram, fotografou. Quando deram as mãos, fotografou.
Quando se beijaram, fotografou.
O fotógrafo até estava sentado numa esplanada de café. Tirou a fotografia, que nem achou nada especial na altura (tal como outros habitantes locais, que passaram por ali e nem olharam).
Só 36 anos depois, quando a fotografia foi publicada num cartaz, é que se tornou num fenómeno mundial. Em 1986 essa fotografia – que até já estava no arquivo – reapareceu quando a revista Life decidiu comercializá-la como poster. Foram vendidos 410 mil cartazes em todo o mundo; a fotografia de Robert Doisneau tornou-se lendária.
Com um contexto, explica a filha: “As revistas dos EUA estavam muito interessadas em histórias de Paris, especialmente em histórias sobre a vida nas ruas de Paris onde as pessoas se comportavam muito mais livremente do que em qualquer lugar dos EUA. Mesmo nas ruas de Nova Iorque, os casais não eram vistos a beijarem-se e certamente nunca tão despreocupadamente”.
Paris (já) era a capital das artes, da cultura e da liberdade.
Robert Doisneau morreu em 1994. Tinha 81 anos. Morreu em Paris.
