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Ventura disputou com ninguém a “liderança da direita”. E perdeu



Tiago Petinga / Lusa

Os números são cruéis. No que diz respeito à “liderança da direita”, só há duas leituras dos resultados de André Ventura nas eleições deste domingo: ou o presidente do Chega conduziu a atual larga maioria de “não socialistas” a uma derrota expressiva, ou essa direita rejeita liminarmente ser liderada por Ventura.

É habitual nas noites eleitorais, no rescaldo de resultados negativos, ver derrotas transformadas em vitórias. Na noite deste domingo, André Ventura não fugiu à regra.

No seu discurso, após a expressiva derrota num ato eleitoral em que recolheu cerca de metade dos votos de António José Seguro, Ventura realçou ter conseguido obter o seu melhor resultado de sempreou “de alguém ligado ao Chega”.

O presidente do Chega reforçou que conseguiu uma percentagem maior do que a AD teve nas eleições legislativas no ano passado (33,18% contra 31,21% da AD), e repetiu o seu objetivo eleitoral: “liderámos a direita e vamos liderar a direita!”

Na campanha eleitoral, André Ventura sustentou que o sufrágio era um confronto entre o bloco de esquerdas e o bloco de direitasque qualificou como o campo ‘não-socialista‘.

O presidente do Chega deixou também claros os seus objetivos: ter mais votos e maior percentagem do que os obtidos pela AD de Luís Montenegro nas últimas Eleições Legislativas.

É questionável, para não dizer disparatado, comparar resultados de Eleições Legislativas com Presidenciais, mais ainda do que fazê-lo com Eleições Autárquicas, e deles tentar tirar ilações. São atos eleitorais diferentes, com características distintas. Eventualmente, mais do que ilações, podemos ler “sinais”.

Mais do que pelas características distintas dos sufrágios, comparar os resultados de 2 formações políticas numa eleição em que há 20 candidaturas a disputar o eleitorado, com os resultados de uma disputa a doisé inquestionavelmente disparatado. Que um candidato o estabeleça como objetivo, é compreensível; que jornalistas e comentadores televisivos o debatam, já parece surreal.

Analisando estritamente os objetivos a que o candidato se propôs, mesmo feridos da falácia da disputa a dois, só há duas leituras dos resultados das eleições: ou Ventura conduziu a larga maioria de “não socialistas” a uma enorme derrotaou essa direita rejeita liminarmente ser liderada pelo presidente do Chega.

Os números são cruéis

André Ventura foi a jogo nesta segunda volta, sabendo que o seu adversário não era António José Seguro, que teria à partida a vitória garantida, mas sim o primeiro-ministro, Luís Montenegroe com a confortável vantagem de que o adversário em causa nem sequer estava em campo.

O presidente do Chega atingiu um dos seus objetivos: conseguiu uma percentagem de votos (33,18 %) superior à obtida pela AD nas Legislativas de 2025 (31,79%). É uma vitória de Pirro, porque a maior percentagem, que depende também da afluência às urnas, não correspondeu a um maior número de votos.

Com efeito, apesar da falta de comparência do seu adversário, André Ventura obteve apenas 1.729.381 votos, abaixo dos 2.008.437 conseguidos pelo atual incumbente no posto de “líder da direita”, à frente da AD, nas Legislativas.

Nesse ato eleitoral, a tal direita que André Ventura pretende liderar obteve, com a votação conjugada da AD, Chega, IL e de quatro pequenos partidos, um total de 3.891.621 votos, bastante acima dos 2.115.128 recolhidos à esquerda — uma larga maioria de direita, com 64% dos votos, que assim ficou refletida no Parlamento.

Objetivamente, Ventura falhou em federar a direitae conduziu António José Seguro à maior votação de sempre numa eleição presidencial, com mais 1.367.353 votos do que os obtidos pela esquerda em 2025.

Nas últimas legislativas, o Chega obteve 1.437.881 votoso que deixa ao resto da direita 2.453.740 votos. Numa leitura maniqueísta, poder-se-ia dizer Ventura foi buscar a estes 2.4 milhões os 291 mil votos que teve a maisque Seguro atraiu 1.3 milhões destes “não socialistas”e que 795 mil não quiseram escolher.

Aparentemente, a direita que Ventura diz liderar rejeitou ser liderada pelo candidato do Chega — e deu uma vitória estrondosa a um candidato socialista.



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