
Não é “palhaçada”: cinco militantes, entre os quais dois ex-candidatos pelo partido, detidos no desmantelamento do grupo ultranacionalista. Ventura terá sido avisado, mas “precisava de todos”.
Perante suspeitas e acusações de prostituição de menores, abusos sexuais de menoresposse de pornografia infantil, furtos de malas em aeroportoscondução sob efeito de álcool ou fogo postoa resposta de André Ventura tem sido expulsar do Chega, abrir processo interno ou até admitir castração. Mas esta postura firme do candidato presidencial não se verifica quando militantes e ex-candidatos do partido são detidos por suspeitas de crimes de ódio, associação criminosa de extrema-direita e atos de discriminação contra imigrantes: aconteceu esta semana, em que o Grupo 1143, liderado pelo neonazi Mário Machado, foi desmontado pela PJ.
Qualquer ligação ao Grupo 1143 deveria, pelo menos, fazer qualquer partido democrático querer uma só coisa deste: distância. Mas não é o caso. André Ventura diz que não afastou os militantes neonazis detidos pela PJe “nem sabe quem são” eles, confessou esta semana, em entrevista à RTP, onde procurou justificar a sua não ação: “Ferro Rodrigues fez coisas piores”.
“O Chega tornou-se um partido muito grande com muitos militantes de todos os quadrantes. Como em todos, há situações que não são as melhores. Eu procurei sempre fazer diferente dos outros, afastar o que tinha de ser afastado, dar uma imagem de transparência aos portugueses”, disse Ventura. “Pensava que já tinham sido expulsos do partido”, apontou ainda, explicando — com surpresa, dias depois de ‘atirar à cara’ de Gouveia e Melo o apoio de José Sócrates ao almirante — que não pode recusar votos de ninguém: “Quem quiser votar em mim vai votar”.
Os cinco detidos ligados ao Chega
Até agora, André Ventura não fez questão de se demarcar dos militantes detidos nem do Grupo 1143: a “conversa do extremismo é palhaçada”. Mas os factos são os seguintes: há cinco militantes do Chega entre os detidos na megaoperação da PJ, que a justificou com o facto de não querer mais mortes. Desses cinco, dois foram candidatos pelo Chega nas autárquicas de 2021.
Um destes cinco detidos militantes do Chega é agente da PSP e foi um dos delegados eleitos à sexta convenção nacional do partido, realizada em Viana do Castelo, apurou o Público.
Outro nome entre os detidos ligado ao Chega é o de Rui Roquepresença de longa data nos congressos do Chega que será o cabecilha do Grupo 1143 no Algarve, este, indiciado por crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência em episódios contra estrangeiros, segundo o CM. Em 2020, foi notícia por apresentar uma moção com a proposta de retirar os ovários às mulheres que abortamque seria chumbada no congresso do Chega em Évora.
Em Guimarães, dois candidatos do Chega nas autárquicas de 2021, foram detidos: João Peixoto e Ana Rita Castro. Esta última, de 29 anos, é apontada como uma das principais contribuintes financeiras do grupo liderado pelo skinhead Mário Machado e está indiciada como co-autora de crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência: diz que o Grupo 1143 de se tornar uma milícia, em conversa telefónica intercetada pelas autoridades. A Concelhia do Chega de Guimarães confirmou no Facebook que os dois detidos ainda se encontram filiados no partido, mas afastaram-se dos “ideais” e “não têm sequer as cotas pagas”.
“O Rosnador” André Caeiro será outro detido, segundo o jornalista Miguel Carvalho. Foi do PNR e militante do Chega até há pouco tempo, diz o autor.
“Precisamos de todos”
A ligação entre o Chega e o Grupo 1143 não é nova, nem inesperada, nota ainda o jornalista, que investiga o partido desde a sua fundação. Aliás, há quase dois anos, o ZAP publicava um artigo semelhante para é
“Não há ligações formais ou orgânicas, mas há cumplicidade“, diz o autor de Por Dentro do Chega, que garante, à Antena 1como exemplo, que um assessor do Chega autointitula-se “supremacista branco”.
E “será difícil que outros não surjam”, acredita: “era uma realidade que borbulhava muito nos bastidores”.
“Acho que vamos assistir à descoberta de dezenas de elementos [do Chega no grupo neonazi]ainda que sem ligação formal ao 1143”, diz também o jornalista.
Miguel Carvalho lembra que o antigo vice-presidente do Chega, Nuno Afonso (um dos entrevistados do seu livro), alertou André Ventura para “a entrada maciça” no partido de “elementos com um histórico muito complicado do ponto de vista das suas ligações extremistas. A resposta que ouviu foi: ‘não me interessa, precisamos de todos‘”, garante Miguel Carvalho.
Apoio público a Ventura e ao Chega
dois dias antes de ser desmantelado, o grupo declarou o seu apoio a André Ventura. “Somos um grupo apartidário e aclubístico, mas neste momento Ventura é a única opção que temos para combater o socialismo”.
Em grupos fechados do Telegram, alguns participantes deixam mensagens entendidas como ameaçadoras, insinuando que o regime terá de “cair” caso António José Seguro vença, nota o Expresso.
Mas será o grupo mesmo apartidário?
Arruda de cara tapada em almoço; “eu pertenço ao Mário”
A ligação entre o 1143 e o ex-deputado Miguel Arruda, mais famoso por ter sido apanhado a roubar malas de aeroportos, não é novidade. Mas Arruda, afastado do Chega devido aos furtos de bagagens que vendia na Vinted, terá participado, de cara tapada com um passa-montanhas, num almoço de convívio no Porto destinado a assinalar o primeiro aniversário do grupo neonazi, em outubro de 2024.
Arruda sempre defendeu o líder Mário Machadoatualmente a cumprir pena de prisão, classificando-o como “preso político”.
Aliás, o próprio explica, apanhado numa partida de comediantes, no X: “eu pertenço ao Mário”.
Para as autoridades, esta proximidade é mais do que um episódio isolado. A investigação sustenta a suspeita de que a relação entre Machado e Arruda pode ter sido usada como porta de entrada para aliciar figuras com projeção política, não só deputados, mas também autarcas e militantes com algum destaque.
Serviços de guarda-costas, 1143 no autocarro do Chega: o “cafézinho”
Segundo o próprio Grupo 1143, o deputado do Chega Rui Afonsoeleito pelo círculo do Porto, solicitou “serviços de guarda-costas” aquando de uma deslocação a Lisboa, em setembro de 2024, para participar numa manifestação anti-imigração promovida pelo partido de André Ventura.
O mesmo deputado usou nessa altura um dos autocarros gratuitos do partido para chegar a uma das manifestações, e segundo a revista Sábadonesse autocarro seguiam também membros do Grupo 1143, que se inscreveram no portal oficial como militantes ou simpatizantes do partido de André Ventura e usaram os meios do Chega para viajarem até à capital.
A alegação surge em vídeos divulgados nas redes sociais por André Silva e João Peixoto, dois dos detidos na Operação Irmandade, que dizem ter combinado o “serviço” durante “um cafézinho” com membros do núcleo norte do movimento de extrema-direita, cita o CM.
Rui Afonso nega ter pedido segurança ao Grupo 1143.
Irmandade, “guerra racial” e recruta de guardas prisionais
Na Operação Irmandade foram feitos 37 detidos e 15 arguidos. A investigação aponta que Mário Machado, levado em Alcoentre desde maio, continua, segundo as autoridades, a controlar a estrutura, alegadamente com telemóveis na prisão, e terá tentado recrutar guardas prisionais.
Também foram detidos um agente da PSP e um militar da Força Aérea, este último com material bélico em casa.
Outros amigos (e aliados) na “remigração” e cultura
É um grupo diferente, mas o Reconquista é outro grupo constantemente classificado como ultranacionalista, supremacista branco, misógino, xenófobo e homofóbico com ligações ainda mais explícitas ao Chega. Segundo o vice do partido Pedro Frazão, o Chega é “com enorme orgulho” aliado do Reconquista.
Ventura tentou distanciar-se de movimentos neonazis mas no ano passado não hesitou em partilhar nas suas redes sociais uma publicação sobre “remigração” com referências claras ao grupo 1143 de Mário Machado e ao Reconquista.
“O Chega, com aliados como vós, está aqui para lembrar a todos que a defesa de Portugal passa também pela defesa da nossa cultura, das nossas famílias e da nossa identidade cristã portuguesa”, disse Frazão, presente no comício do grupo cujo líder, Afonso Gonçalves, defende publicamente, entre outras coisas, que as mulheres não devem votar, que os homens são mais inteligentes que as mulheres e que o feminismo é uma doença.
