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outrora agora, a sobrevida do ensaio – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Set 3, 2023

Habitando a língua como o lugar da mais rigorosa incerteza, João Barrento é um dos pilares da escrita de ensaio em Portugal, apresentando uma vasta obra dedicada a diversos autores. Professor universitário, sem que a academia para si tenha alguma vez constituído o horizonte autotélico tantas vezes condicionante, tradutor de algumas das mais importantes obras da literatura e do pensamento ocidentais, publica agora Aparas dos Dias — A escrita na ponta do lápis, uma edição da Companhia das Ilhas. Um livro como uma casa, uma obra como a habitação da língua (em acto contínuo, poemacto, parafraseando Herberto Helder), o novo livro de Barrento abre — fora de quaisquer manobras metafóricas, o primeiro capítulo intitula-se precisamente “Abertura” — com uma frase que é tanto uma nota introdutória acerca do que se seguirá, quanto a promessa do testemunho da sua e de outras vidas e obras, apontando a escrita como um modo de estar responsável, segundo princípios nem sempre claros, vinculados exactamente por essa imprecisão diligente.

Trata-se de um convite à versura de um lugar em constante expansão — o ensaio —, e que começa por evidenciar o próprio território e o respectivo lugar mental de um país, Portugal, onde exagerado não será asseverar a inexistência de uma tradição ensaística. “Este é o meu livro de leitura, de leituras, de colheitas, de respostas aos apelos de outros livros e a chamadas que sempre foram chegando, e continuam a chegar, daqui e dali … Também do que ficou pelo caminho, esboçado mas sem forma final … Muita ideia vai ficando pelo caminho, muita escrita adiada ou enterrada em anotações que nunca geram texto.” (7). Apresenta-se, pois, um conjunto de ensaios de natureza diversa, cerzidos entre si nos termos, assim conciliados, do biográfico, no que à figura pública e histórica do autor diz respeito, e do puramente íntimo, ou tão-só biografável, nesse ponto exacto em que biografia se torna tão crível quanto um conto de fadas, jamais caindo na exorbitância supérflua de tons intimistas: entrevistas, discursos de agradecimento de prémios, textos sobre literatura, arte, sociedade, tradução, filosofia e, finalmente, lugares que por um ou outro motivo levaram o autor à escrita.

Um possível signo a partir do qual este livro se revela é o da viagem e do lugar, por meio da força de um espírito, daquele que se dispõe a declinar o olhar em face do real, umas vezes deambulatório, móvel, espectador viajante de long shot, predisposto a visões panorâmicas de obras poéticas e/ou filosóficas, outras vezes obstinado em pontos fixos, detalhes, o habitante do close-up, um pouco ao jeito dessa melancolia teorizada por Walter Benjamin, inseparável de uma forma meditativa de conhecer o outro, que a Barrento decerto não é estranha. Às crónicas a dar conta de problemas gerais — de como vivemos no “ruído indiferenciado e indiferente da imagem pela imagem” (12) a como a contemporaneidade é palco de uma “anarquia criativa, nem sempre pensante” (29) — não se opõem, com efeito, os textos dedicados a um único poema, pois que tudo se declina ao registo do ensaio, fazendo da distância que a escrita inscreve o modo de furtar-se à campanha persecutória e moralista em que tantos debates públicos resultam, numa rapidez confrangedora — o empobrecimento da imprensa e da crítica é sintomático de um ambiente viciado e do fim da língua como princípio formativo do sujeito.

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