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O ideal da vida banal – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Set 8, 2023

Talvez para surpresa de alguns mais deslumbrados, a vida moderna não representa propriamente uma manifestação sofisticada de algum nobre ideal, ou virtude, consubstanciada numa experiência mais aprofundada, fecunda, escalpelizada do mundo. Pelo contrário, a existir um ideal que norteie a modernidade esse será a afirmação do ideal da vida banal. Hoje, não se espera do homem contemporâneo que se transcenda rumo ao martírio ou à santidade, nem sequer, para sermos justos, que respalde um conjunto particular de virtudes que, de forma harmoniosa, manifestem uma particularmente complexa e difícil tradução da vida boa, um conceito, aliás, maioritariamente interpretado pelo sentido hodierno que o termo “bom” ganhou — agradável, prazenteiro, saboroso —, ao invés do sentido antigo, clássico, onde o bom, a par do justo, representava a pureza do Bem, um ideal que, como Platão explicava, “apenas no limite do cognoscível” se poderia almejar vislumbrar. Esse periclitante “por-se em bicos dos pés” por parte do Homem na ânsia de se ultrapassar a si mesmo, o ancestral ideal existencial, acabou — tirando, talvez, na competição, normalmente atlética, transmitida como entretenimento em câmara lenta pela TV —, dando lugar ao conforto que o sofá almofadado do IKEA veio trazer para a maioria da população. Bem alimentado, o indivíduo moderno colhe hoje os frutos do engenho tecnológico resfastelado em arranha-céus feitos de betão armado, servido por elevador, uber eats e demais take-away, muito longe já das bestas do mundo animal primitivo, isto enquanto espreita, em directo, a tragédia do mundo que criou lá longe, do outro lado dos ecrãs azulados dos telemóveis, iPad’s e televisores.

A vida boa, aquela à qual o homem moderno aspira, não deixa de ser idealizada, é certo, mas não representa hoje em dia qualquer tipo de evocação do transcendente, nem sequer de um quadro de valores particulares, menos ainda de um especial exercício de virtuosa acção humana que, puxando os limites, rumo ao Cosmos, sonhe a elevação humana face à sua condição existencial inicial. Muito pelo contrário, a transformação, a existir, será apenas técnica e material; tal como a afirmação da vida normal como sendo a boa vida exalta, não a transcendência, mas sim a materialidade do mundo, hoje reduzido à conveniência, segurança e facilidade que devem marcar um quotidiano assente em rotina e agradável repetição. Deste modo, longe dos mitos fundacionais, dos relatos do heroísmo ancestral na criação do mundo, o homem moderno assume-se como o herói da normalidade, aquele que desfruta hedonisticamente do mundo como contrapartida pelo sucesso que a moderna tecnologia, sua invenção, lhe veio garantir. O seu poder não vem, portanto, da sua força individual, daquilo que enquanto indivíduo faz, ou do que poderia fazer; pelo contrário, e por paradoxal ausência, deriva da sua capacidade, única na história do mundo, para se eximir de sequer ter que fazer o que quer que seja. Onde, no mundo antigo, a realidade era dura e adversa, sendo, precisamente, da dificuldade dessa luta ancestral contra o caos que se aferia o heroísmo humano, passou-se hoje para um mundo novo onde o valor da modernidade reside na alegada transcendência face a essa anterior condição existencial, ou seja, na promessa de ausência de luta, conflito ou tragédia. Assim sendo, a grande “virtude” do homem moderno — uma virtude colectiva, partilhada, existencial, que o orienta necessariamente para o colectivo — reside no facto de, ao contrário dos seus antepassados, não enquanto indivíduo, mas enquanto espécie, crer ter conquistado o “direito” a não ter que fazer grande coisa, salvo, claro, tratar de garantir o básico, ou seja, a tal vida normal.

O mundo político, naturalmente, seguindo fielmente a maioria que garante a eleição, acompanhou a moda, reduzindo a antiga realidade de desígnios, causas e princípios a um linguarajar repetitivo, cacofónico, de pormenorizada e aborrecida estatística doméstica que afere o estado da Situação medindo, pressurosamente, entre outras coisas, o consumo per capita de electrodomésticos, automóveis ou aparelhos de telecomunicação. Ao mesmo tempo, afirmando o valor supremo da vida normal, espera-se erradicar toda e qualquer dificuldade, ou sequer angústia, por forma a garantir o direito inalienável ao pleno usufruto da normalidade humana — que de tão “normal” deverá ser igual para todos. Daí, nasce também o conceito do “safe space”, aquela área do mundo onde o humano moderno se sente completamente livre para exercer de forma completa e desimpedida a sua particular versão da normalidade — ganhando esta aqui o seu significado máximo como o arauto da auto-expressão subjectiva no mundo, uma manifestação banal tão vazia de conteúdo real na sua pretensa individualidade quanto é colectivamente oferecida, garantida mesmo, a todos, por igual, bastando para essa “conquista” ser-se eficaz na arte da birra, da lamúria, do queixume ou da histérica indignação.

No entanto, e apesar de quase despercebida, esta componente da revolução moderna é avassaladora na medida em que é a própria valoração do Homem perante o mundo que foi invertida: onde antes era das dificuldades particulares que se mediam os sucessos necessariamente individuais de cada um, hoje o sucesso implementa-se garantindo que não existem dificuldades individuais algumas, algo que se verifica transversalmente na sociedade, invariavelmente acoplada com a progressiva substituição do esforço individual pelo mérito colectivo — assim justificando o enorme paradoxo dos dias de hoje que vê as sociedades mais liberais do Ocidente culminarem naquelas que são igualmente as menos livres.

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Assim também é na escola, por exemplo, onde o chumbo é já tão anacrónico quanto a angústia criada pela incapacidade de resolver um problema de trigonometria. Mas nem de outro modo poderia ser, pois que, em boa verdade, a escola de hoje não está orientada para gerar sumidades capazes de virtuosa excelência matemática, uma vez que, lá está, tal coisa não seria uma afirmação de normalidade. Pelo contrário, normalidade, na realidade, implica nivelar por baixo — ou seja, banalizar — por onde todos podem ser normais, onde todos se podem exprimir em igual e fraterna normalidade, nunca por cima, onde apenas o simples facto de alguém alcançar o que poucos conseguem alcançar acaba por revelar a desigual anormalidade que uma vida humana orientada para a excelência, por definição, significaria.

Na universidade, o exemplo é ainda mais flagrante: onde a dificuldade do acesso e do triunfo antes revelava a medida do sucesso, sempre do próprio, individual, tanto maior quanto maiores as dificuldades enfrentadas, hoje o sucesso mede-se pelo facto de todos terem acesso e de vermos toda uma geração “encartada” — “a mais preparada de sempre” —, ainda que essa preparação seja em inutilidades, ou apenas no papel. Ainda assim, também aqui não apenas o sucesso é de todos, logo coletivo, como se desvaloriza o individual na medida em que todos o conseguem fazer, incluindo os loucos e os histéricos — a banalização, inevitavelmente, revela-se sempre como sendo a outra face da moeda da afirmação da normalidade. Mas, tomem-se outros exemplos, como nas artes onde nos últimos anos a quimera da auto-expressão subsidiada, garantida, substituiu o outrora imortal grito humano pela excelência por um charco de lixo ininteligível, quando não simplesmente animalesco, mundano, porco em muitas circunstâncias, ao qual ninguém liga salvo os próprios, sempre incapaz de inspirar seja quem for. Ou, noutro campo, na arquitectura, com o triunfo máximo do funcionalismo onde a normalidade se revela pela geometria repetitiva dos caixotes funcionais, do minimialismo, branco, asséptico, reflectindo ainda hoje a idealização, já démodé, de Kubrick, em 1968, sobre o que seria o ano 2001.

Também no campo dos valores o mesmo se passa com a crescente subjugação de tudo, incluindo a vida, face ao expediente e ao interesse banal do momento. Aqui veja-se como se transformou o aborto numa questão de conveniência económica doméstica que decide a vida e a morte de terceiros sem qualquer enfoque no valor da vida gerada, ou potencial, mas muito mais no nível da funcionalidade imediata, prática, material; tal como a eutanásia, repare-se, glorifica também ela a vida normal, sem qualquer sofrimento, pois que este, sendo trágico, logo não-moderno, não deverá ter lugar na vida banal, significando também que mais vale morrer por vontade própria, no controlo do “safe space”, do que enfrentar a dor, a angústia e o natural sofrimento do mundo. Isto, claro, enquanto o Estado, progressivamente, e em nome do ideal da vida normal, acaba chamado para decidir sobre a vida e a morte das pessoas — o Estado que salva, o Estado que mata, tudo rápido, tudo indolor, tudo funcional, tudo normal.

O prático, o seguro, o confortável, tudo variantes da afirmação da vida normal, eis a verdadeira expressão máxima do materialismo moderno progressista: o ideal assente no pressuposto de que a vida realiza-se materialmente pela capacidade de evitar a adversidade, seja esta uma divisão arquitectónica menos ampla, uma prova académica mais difícil, um novo serviço menos verificado, uma polémica social qualquer que crie angústia, ansiedade ou simples ofensa, assim é o mundo moderno — ridículo, absurdo, tristemente cobarde. Transversalmente, a afirmação da banalidade flui ora por todos os componentes políticos, desde os conservadores preocupados com a economia doméstica, aos liberais obcecados com o “safe space” dos direitos individuais, culminando com os marxistas e seus sucedâneos que, a cada novo escândalo e indignação, aproveitam para vender mais e mais Estado. Hoje, a afirmação da banalidade, coerente e pleonasticamente, tornou-se ela própria banal e hegemónica, tudo arrasando à passagem da vaga estandardizadora da normalidade repetitiva, imitadora, histérica na exigência conformadora — e enjoativa de tanta falta de originalidade.

No entanto, por trás da fanfarra ufana e de toda a mise en scène, a modernidade apenas promete uma utopia que, no deslumbre brilhante da abundância material, mais não visa que substituir o ideal da transcendência espiritual pelo materialismo puro e duro. No primeiro, próprio do mundo antigo, a natureza trágica do mundo era aceite como uma inevitabilidade cujo enfrentar conferia valor, sentido e significado à vida humana; no segundo, imagina-se agora um mundo novo onde a tragédia, numa extrapolação abusiva do paraíso Cristão para o mundo terreno do aqui e agora, é simplesmente abolida como algo social e politicamente inaceitável.

A questão que sobra será até que ponto este desígnio da modernidade, hoje cada vez mais reflectido num optimismo progressista que não encontra barreiras nem limites, será concretizável. Devemos imaginar Sisifo feliz, escreveu Camus nas linhas finais do seu Mito, mas será mesmo que Sisifo seria mais feliz se tivesse um robot telecomandado para empurrar a pedra montanha acima por ele? Ou se, por força de algum instrumento de levitação electromagnética, conseguisse Sisifo perpetuamente empoleirar a imensa pedra no topo, resolvendo de facto a sua situação, e mudando-se para uma cabana no sopé da montanha, com jacuzzi e Netflix, estaria ele mais satisfeito na sua eternidade? Por outras palavras, quanto custará em tédio, aborrecimento e depressão a amputação ilusória da tragédia que revela a verdade do mundo tal qual ele é, sempre foi e sempre será?

A modernidade progressista e a sua deslumbrada crença na afirmação da vida normal parece ter esquecido que o Homem desde sempre se mediu pela forma como enfrentou a tragédia do mundo, não pela cobardia com que se escondeu dela. A vida com significado, plena de sentido e sensação de satisfação individual, a pedra de toque da felicidade humana, sempre se fez enfrentando o mundo, nunca, como hoje, pela exaltação de um modelo de vida relapso, diletante, ordinário — e vazio —, onde a problemática no mundo rico e opulento do Ocidente parece ser a de como permanecer perpetuamente entretido, para não dizer alienado.

O erro, naturalmente, está na base, no pressuposto materialista de que o mundo se resolve, ou poderá ainda vir a resolver, materialmente. Esquecendo o aborrecimento entediante que tal solução materialista traria consigo, a modernidade e os seus acólitos têm progressivamente intentado fazer esquecer que o mundo não se limita à sua cambiante material e alegadamente científica. Não obstante, a verdade intemporal continua hoje, como sempre, a ser apenas uma: é da relação com o mistério, com o Cosmos assente no infinito desconhecido, no abismo do divino, que, espreitando, a medo, com coragem, o Homem sonha servir para alguma coisa — e é desse sonho trágico que ele se consola na aridez solitária do mundo material.

A modernidade ao esquecer isto — e o “isto” é o essencial — corre o risco de esbanjar em frívola banalidade a melhor oportunidade material que ocorreu na história da Humanidade para almejar dar um salto, quem sabe rumo ao Cosmos e às estrelas. Ainda assim, como se isso já não nos bastasse de trágico, com os seus gritinhos ululantes, os acólitos do absurdo, em uníssono, que nem autómatos com pilhas, não descansam na sua incessante e fanática patrulha pela nova moral e os novos costumes, assim infernizando a vida de todos aqueles que não se deslumbram com os brinquedos do admirável mundo novo. Haja paciência, no mundo real uma tragédia nunca vem só.

Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não reflectem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.



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