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O que é o burnout? Oito perguntas para entender o esgotamento e exaustão relacionados com o trabalho – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Set 10, 2023

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o burnout é uma síndrome [conjunto de sintomas] resultante do stress crónico, motivado por excesso de trabalho, que não foi gerido com sucesso. Tem três características principais:

  • Sentimento de esgotamento ou exaustão física e emocional;
  • Diminuição da eficiência e da produtividade, assim como da realização profissionais;
  • Distanciamento ou desligamento em relação ao trabalho, acompanhado de sentimentos de negativismo ou “cinismo” relativamente a este.

O burnout não é considerado uma doença, apesar de a OMS o ter incluído na nova Classificação Internacional de Doenças (CID), em 2019. A definição usada pela instituição é “fenómeno ocupacional”, sublinhando que este “não se classifica como uma condição médica”. Foi descrito no capítulo “Fatores que influenciam o estado de saúde ou o contacto com os serviços de saúde”, em que se listam as razões pelas quais as pessoas procuram o médico, mas não são doenças.

“O burnout não é formalmente reconhecido como um diagnóstico psiquiátrico, mas sim como uma síndrome [conjunto de sintomas] associado à exposição ao stress crónico em contexto laboral, que foi originalmente definido por Herbert Freudenberger [psicólogo alemão] nos anos 1970 e depois aprofundado, na década seguinte, pelas psicólogas americanas Christina Maslach e Susan Jackson”, explica Pedro Frias Gonçalves, psiquiatra no Hospital Magalhães Lemos.

É comum ler ou ouvir falar de burnout académico, parental ou do cuidador, contextos que, em determinadas circunstâncias, podem ser associados a grande stress e exigência e podem levar à exaustão e ao esgotamento. Mas a OMS é clara: o burnout incluído na Classificação Internacional de Doenças “refere-se especificamente a fenómenos no contexto ocupacional e não deve ser usado para descrever experiências em outras áreas da vida”.

No entanto, Pedro Frias Gonçalves entende o uso da palavra quando o contexto é académico ou de cuidados, uma vez que os fatores que levam ao conjunto de sintomas são muito semelhantes. “A primeira conceptualização do burnout deveu-se mesmo a profissões que tinham que ver com o cuidar. É uma questão que está em discussão e as fronteiras por vezes não são claras, mas de acordo com a conceptualização clássica, quando falamos de burnout, falamos de trabalho, de condições de trabalho, de ambiente de trabalho. É assim que está plasmado neste momento nos manuais.”

O burnout é uma reação ao stress crónico associado ao trabalho, portanto encontramos as suas causas naquilo que dá origem a este stress, como explica o psiquiatra.

“O nosso corpo e o nosso cérebro respondem àquilo que interpretam como agressão ou situações stressoras, ativando uma série de respostas hormonais que são úteis para lhe responder em determinado momento. Mas quando o stress é crónico, essas repostas estão ativadas durante muito tempo e isso acaba por se traduzir em burnout.”

As causas estão identificadas e “há até bastantes modelos que nos permitem prever que tipos de trabalho e de condições de trabalho se associam a um maior sofrimento mental e também físico”:

  • Excesso de trabalho, com tarefas de elevada exigência, física ou psicológica;
  • Horários de trabalho extensos e incompatíveis com a fruição da vida pessoal e ausência de fronteiras claras entre o tempo de trabalho e o tempo pessoal;
  • Trabalho por turnos ou de jornada contínua;
  • Ausência de controlo e de autonomia por parte dos trabalhadores relativamente às suas condições de trabalho, horários, tarefas que desempenham e forma como as desempenham, etc;
  • Falta de recompensa, nomeadamente baixos salários, ausência de perspetivas de progressão na carreira e de progressão salarial;
  • Desequilíbrio entre o esforço e a recompensa, que causa desmotivação e precariedade laboral e cria instabilidade;
  • Falta de apoio e ambiente de trabalho tóxico, com ausência de apoio por parte dos superiores hierárquicos e dos colegas;
  • Questões relacionadas com assédio laboral e assédio moral no trabalho.

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“O quadro de sintomas está menos bem estabelecido do que para outras patologias, mas há três grandes sinais de alerta, que são aqueles de que a OMS fala na sua definição: sentimento de esgotamento ou exaustão física e emocional; desligamento em relação ao trabalho, com sentimentos de negativismo ou ‘cinismo’ relativamente a este; diminuição da eficiência e da produtividade, assim como da realização profissionais”, esclarece o psiquiatra, notando mais uma vez que “para haver o diagnóstico do burnout, tem que haver uma correlação clara entre estes sintomas e o contexto de trabalho”.

O burnout pode causar estados de depressão e ansiedade mas, normalmente, uma pessoa em burnout apresenta:

  • Fadiga constante e falta de energia;
  • Aumento da irritabilidade e alterações de humor;
  • Insónia ou distúrbios do sono;
  • Redução do desempenho no trabalho;
  • Isolamento social e distanciamento;
  • Sintomas físicos, como dores de cabeça ou dores musculares.

Sim, há características individuais que poderão ser um fator de risco para o burnout e, paradoxalmente, são características à partida positivas e valorizadas pelos empregadores e gestores de recursos humanos.

“Pessoas altamente motivadas, perfecionistas, ambiciosas, muito preocupadas com a qualidade do seu trabalho e com dificuldade em reduzir o trabalho extra e em desligar são mais suscetíveis de desenvolver burnout, sobretudo quando estas características são exploradas ou esbarram com estruturas de trabalho rígidas que potenciam o sentimento de frustração e desmotivação.”

Para responder a esta pergunta, o psiquiatra Pedro Frias Gonçalves recorre a uma metáfora: “Uma boa forma de pensar isto, tendo sempre esta questão do stress como conceito central, é pensar na nossa resposta ao stress como se fôssemos atletas”.

“Quando está a correr, o atleta sujeita o corpo a stress e, se passa um determinado limite individual, começa a ter algumas dores, continua a correr e, quando para, fica bem, deixa de ter dores. Se o stress físico se for acumulando e ele for transpondo os limites da dor, quando para, a dor continua, pode chegar mesmo ao ponto de rasgar um tendão e ficar com uma limitação física para sempre. O que o stress provoca ao músculo pode ser transposto para o que o stress faz ao nosso cérebro e ao nosso corpo”.

Portanto, em fases iniciais de sintomas de burnout, a pessoa, quando sai do seu contexto de trabalho, fica bem porque se afasta dos fatores de stress, explica o psiquiatra, “mas quando os sintomas começam a instalar-se de forma mais vincada e mais crónica, a sensação de fadiga,  falta de energia ou distanciamento acaba por passar para a vida pessoal e provocar outros quadros de ansiedade e depressivos”.

“O tratamento passa por intervenções psicológicas, como a psicoterapia, e pela medicação para gerir os sintomas”, diz o psiquiatra Pedro Frias Gonçalves.

Indutores de sono, ansiolíticos e antidepressivos são alguns dos medicamentos que podem ajudar a melhorar a qualidade de vida das pessoas e a torná-las mais funcionais e evitar situações mais graves. Devem ser sempre prescritos pelo médico e cada situação clínica deve ser avaliada caso a caso.

A grande dificuldade de tratamento do burnout é não depende exclusivamente da pessoa afetada nem da abordagem clínica. “O problema só se resolve quando se alteram o contexto e condições de trabalho da pessoa – ou a relação dela com o trabalho”, diz o psiquiatra. “A psicoterapia pode ser importante, a farmacologia ajuda com os sintomas, mas resolver o problema não depende apenas das respostas de saúde mental.”

Criar ambientes (e comportamentos) de trabalho mais saudáveis é fundamental para tratar o burnout, pelo que a questão passa, em grande parte, pela prevenção.



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