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Os cantores hoje são uma porcaria – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Set 16, 2023

Os cantores hoje são uma porcaria. Não pela voz que têm mas pela voz que não ouvem. As vozes dos cantores de hoje, que de facto são uma porcaria, continuam a ser boas vozes. São afinadas, por vezes doces, por vezes dramáticas, e provavelmente nunca houve tantos recursos para se cantar bem—haverá até algum excesso de afinação. A porcaria que os cantores são não tem nada a ver com a eficácia com que nos chegam aos ouvidos, mas com a ausência que têm nos seus ouvidos para a voz que existe além das suas. Os cantores hoje são uma porcaria porque o bem que cantam é o seu alfa e o seu ómega, o seu início e o seu fim, o seu triunfo e a sua tragédia.

Conheço muitos cantores. Geralmente são uns queridos mas não deixam de ser uma porcaria. Os cantores de hoje estão prestes a estoirar no talento que têm. Sentem-se na obrigação de compreender a admiração que conquistam como a consequência natural do talento que têm. Os cantores de hoje são uma porcaria porque não sabem existir fora do treino para o louvor que o talento deles suscita. Quanto mais talentosos são os cantores, mais surdos se tornam a qualquer voz fora deste circuito narcisista. Faz um cantor sentir-se querido e terás esta porcaria, ainda que possa ser a tal querida porcaria.

Como é que um cantor deixa de ser uma porcaria? Esforçando-se por ter uma vida que vá além do talento da sua voz. A melhor voz que existe é a que dá voz às outras, além das nossas. A melhor voz é a voz original, a que deu origem a todas as coisa—a voz de Deus, claro. Nietzsche, nada crente, sabia que depois de se tentar matar Deus, apareceriam trafulhas sacerdotes alternativos de novas religiões. Um dos territórios desses trafulhas sacerdotes alternativos seria a arte. Depois da tentativa de se matar Deus, candidatos ao seu lugar seriam mais que muitos impondo-se, por exemplo, como artistas. E, por isso, é precisamente numa área tão singela e incontornável como a da canção popular em que tantos fazem por viver da admiração que antes era entregue a Deus. Basta sair de um Verão, como agora saímos, para constatar que a devoção dominante da juventude é a prestada nos inúmeros altares onde cantores são adorados como divindades.

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