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“A agricultura regenerativa precisa de acontecer onde quer que exista agricultura” – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Abr 11, 2024


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O auditório do Nonagon – Parque de Ciência e Tecnologia de São Miguel encheu-se de vários interessados no tópico, contando com a presença de produtores, professores e alunos do ensino superior, empresários, bem como do secretário regional da Agricultura e Alimentação, do presidente da Federação Agrícola dos Açores e do presidente da Associação de Jovens Agricultores Micaelenses.

Mas, afinal, o que é a agricultura regenerativa?

Para além de ser considerada “um desafio” para a agricultura nos próximos anos, a agricultura regenerativa é, nada mais, nada menos, que um modo de produção focado na qualidade do solo utilizado no crescimento de plantas saudáveis, através da proteção dos microrganismos e ecossistemas que o integram.

Para o efeito, conforme apresentado neste congresso, são utilizadas variadas técnicas que permitem obter um solo saudável, quer no cultivo de alimentos utilizados diretamente na alimentação humana, quer no desenvolvimento saudável e sustentável das pastagens onde, nos Açores, passeiam as denominadas “Vacas felizes”.

André Antunes, agricultor e consultor através do Savory Institute

Conforme explicou André Antunes, agricultor e consultor através do Savory Institute, os princípios que garantem o sucesso da agricultura regenerativa começam pela necessidade de manter a cobertura do solo o maior tempo possível ao longo do ano, utilizando mais do que uma cultura em simultâneo, evitando os solos nus.

Limitar os distúrbios, nomeadamente os biológicos, é também um passo importante na agricultura regenerativa, sendo, por isso, importante limitar a utilização de fitofármacos. Conhecendo os efeitos negativos destes químicos, o consultor refere que é importante evitar o azoto, o fósforo e o potássio, tendo este um “efeito muito negativo quando está em excesso no solo, por bloquear a absorção de muitos nutrientes”.

Outro passo importante passa por aumentar a diversidade vegetal e animal nos terrenos durante todo o ano, bem como pela manutenção de raízes vivas, uma vez que são estas que permitem, através da fotossíntese, “alimentar a microbiologia do solo”.

A agricultura regenerativa prevê ainda a importância da existência de um pastoreio planificado adaptativo. Através deste método, André Antunes salienta que os produtores conseguem “saber exatamente o que se passa no campo: como é que os animais se movimentam, os seus períodos de repouso, o crescimento e a produção de cada parcela”, sem esquecer os benefícios que a movimentação, a produção de excrementos ou os próprios sons que os animais emitem enquanto se alimentam podem ter na qualidade do solo.

Cinco produtores açorianos aceitaram o desafio

Foi durante este evento que a Bel Portugal apresentou o projeto-piloto que, ao longo dos últimos dois anos tem sido desenvolvido na ilha de São Miguel, envolvendo cinco produtores com explorações em diferentes localidades da ilha, tendo como objetivo tornar a produção de leite “ainda mais sustentável”, com um produto de qualidade superior graças a “pastagens mais ricas em nutrientes”, e produtores mais “conscientes e resilientes”, referiu Rui Calouro, Milk Purchasing Manager da Bel Portugal.

Rui Calouro, Milk Purchasing Manager da Bel Portugal

Para dar resposta ao objetivo de “implementar cada vez mais a pastagem”, e uma vez que este projeto-piloto se encontra dentro do projeto das Vacas Felizes, que “privilegia a pastagem 365 dias por ano”, o novo projeto dá especial relevância à introdução do pastoreio planificado adaptativo.

“Nele, nós balizamos e determinamos quais as zonas de pastoreio e a intensidade que damos ao pastoreio”, explica o gestor de projeto, referindo – embora não tenham sido, para já, avançados dados concretos relativamente à experiência – que os “nutrientes são repostos no ecossistema” através dos animais.

Com a confiança de que o projeto irá resultar “em todas as zonas” onde for implementado, Rui Calouro avança que a Bel Portugal deseja que a agricultura regenerativa seja “uma realidade para todos os agricultores, não só os da Bel”.

Mudar a maneira de produzir leite nos Açores

Para o diretor de compras da Bel Portugal nos Açores, Eduardo Vasconcelos, a agricultura regenerativa é também uma forma de “mudar a maneira como produzimos leite”, confiante de que o respeito pela natureza permite aos produtores ter “produções iguais, mas com custos menores e um produto mais natural”.

Eduardo Vasconcelos, Diretor de compras da Bel Portugal nos Açores

A par do pastoreio planificado, realça a importância na redução dos fertilizantes químicos, já que, se por um lado permitem a redução de custos do produtor com a pastagem, por outro, permitem aumentar a capacidade de produzir mais alimento dentro da exploração, fazendo com que o produtor “esteja menos dependente do exterior”.

Nesta fase do projeto, salienta, a Bel Portugal está concentrada em aumentar em 50% a área de pastagem associada ao projeto-piloto, incluindo mais produtores, referindo que este é um projeto que decorre a lenta velocidade, tendo em conta que, para além de dividido em várias fases, são necessários entre três e sete anos para que os terrenos “estejam em condições de funcionarem corretamente”.

No que ao produto final diz respeito, o diretor de compras realça que “é fundamental para uma área como os Açores, que tem um verde e condições excecionais, ter um produto em linha com as expetativas do consumidor”, tendo em atenção que este “quer saber como é que as coisas são produzidas e onde são produzidas”, sendo esta uma forma de a Bel Portugal se aproximar “muito mais das necessidades e daquilo que o consumidor pede”.

Um exemplo do exterior

Diretamente dos Estados Unidos da América, Phyllis van Amburgh foi até aos Açores para mostrar que “a agricultura regenerativa precisa de acontecer onde quer que exista agricultura”.

Para além de se dedicar à produção de gado – juntamente com o marido e com os filhos –, a norte-americana é também consultora para empresas multinacionais, grupos de investimento e “para quem quer que se interesse em melhorar a sua produção na área dos laticínios/carne”.

Esta melhoria, salienta, acontece a partir do momento em que a atenção do produtor passa para a qualidade do solo, uma vez que “o que cresce acima do solo depende totalmente do que acontece debaixo dele”, reiterando, à semelhança dos restantes oradores, que “há um inteiro ecossistema que temos que manter abaixo da superfície para que seja possível beneficiar a produção”.

Phyllis van Amburgh, consultora do Savory Institute

Para Phyllis van Amburgh, “a verdadeira magia da agricultura regenerativa acontece quando são incorporados animais”, pois para além da decomposição dos seus excrementos, “também a saliva e as pequenas gotas de humidade que caem do nariz das vacas atuam como um bio estimulador e ajudam as plantas a crescer”, sem esquecer “a vibração das vacas a morder a erva que estimula a microbiologia do solo para que as plantas voltem a crescer”. Algo impossível de reproduzir “com um corta-relva”.

Em conjunto com o pastoreio planificado, e mesmo tendo em conta que, na sua quinta, o solo fica coberto com neve durante vários meses, a especialista refere que, “no fim, haverá mais erva do que vacas” e que, por isso, este é um tipo de agricultura que “funciona em todo o lado”.

Em termos económicos, a norte-americana realçou que, desde 2019, a família poupou cerca de 70 mil dólares em alimento para o gado, conseguindo alimentar todas as cabeças apenas com a erva que cresce de forma volumosa na pastagem.

Pelo progresso da agricultura regenerativa nos Açores

Depois da mesa-redonda sujeita ao tema “Como contribuir para uma agricultura sustentável”, na qual estiveram presentes representantes de empresas como a Nestlé, Euroscut e Musami, foi a vez de o secretário regional da Agricultura e Alimentação encerrar a sessão.

Nesta ocasião, António Ventura apelou aos presentes para “optarem pelo consumo de alimentos provenientes de todas as agriculturas açorianas”, considerando que esta é uma forma de “contribuir para o progresso dos Açores e para a melhoria da qualidade de vida” dos açorianos, elogiando o esforço da Bel Portugal por ser “proativa” em projetos que contribuem ativamente para a Região.

António Ventura, secretário regional da Agricultura e Alimentação

Prova desta proatividade, é o trabalho intenso desenvolvido com os produtores e fornecedores, bem como o investimento que tem vindo a ser feito nas fábricas da BEL Portugal, com especial destaque para a caldeira de Biomassa que será instalada na fábrica açoriana, que reduzirá 80% das emissões e tem como objetivo contribuir para a neutralidade carbónica até 2050, em linha com o Acordo de Paris.

Em acréscimo, a Bel Portugal tem entre os seus objetivos fazer com que, até 2030, todos os seus produtores utilizem técnicas de agricultura regenerativa, uma ambição enaltecida no Prémio Nacional Agricultura, pretendendo, assim, continuar a ajudar os produtores a fazer esta transição e a proporcionar discussões junto da comunidade científica, dos agricultores e de outros intervenientes na cadeia de produção, na defesa de uma produção de leite mais natural e a salvaguarda do planeta.



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