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Afastamento de Montenegro? “É muito evidente que houve essa preocupação de tentar desligar” – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Abr 15, 2024

Foi nessa altura que Cavaco Silva decidiu promover negociações entre Pedro Passos Coelho e António José Seguro na procura de uma solução entre os dois partidos, hipótese que o social-democrata sempre descartou. Paulo Portas acabaria por recuar e manter a coligação, mas a relação entre o líder do CDS e o então Presidente da República sofreu um enorme abalo. “O Presidente da República achou que o CDS podia não ser de confiança para assegurar as tarefas do pós-troika.”

De resto, nesta entrevista, Passos não esconde as divergências que teve com Aníbal Cavaco Silva, ainda que reconheça o facto de o então Presidente da República ter salvado “o governo mais do que uma vez” e de nunca ter retirado o apoio ao governo que estava em funções. Tive um relacionamento impecável com o Presidente da República. E, nos momentos difíceis, tive o apoio dele e isso foi importante e foi importante para o país. Porque, se tivesse falhado, o país teria falhado também.”

Mesmo assim, o antigo primeiro-ministro acredita que foram muitos os momentos em que o então Presidente da República levantou obstáculos difíceis de transpor. “Uma boa parte das decisões que o Tribunal Constitucional assumiu, assumiu no conforto de que o Presidente da República não concordava com elas. E ele foi muito vocal nessas matérias”, começa por dizer Passos. “Tive até discordância severa e assumida em termos públicos. E isso evidentemente que nem sempre ajudou. Algumas vezes desajudou.”

Em retrospetiva, Passos tenta encontrar uma justificação. “Julgo que o Presidente da República, não direi que da mesma maneira que Paulo Portas, porque o Presidente da República é um professor de Finanças Públicas, é um homem que foi primeiro-ministro há 10 anos e, portanto, era uma pessoa com outra preparação. Mas de outro tempo. Quero dizer, a leitura que o Presidente da República fazia do que se passava nas instituições europeias naquela época tinha pouco a ver com o que se tinha passado 20 anos antes na sua experiência governativa. Ele acreditava que as instituições tinham a obrigação de proceder de outra maneira, mas não procediam. E não era pelo governo português dizer, ‘olha, eu isso não faço’, que elas passariam a concordar connosco.”

Também nesta entrevista conduzida por Maria João Avillez para o podcast do Observador “Eu Estive Lá”, Pedro Passos Coelho fala sobre um dos momentos mais polémicos do seu mandato como primeiro-ministro — a TSU dos trabalhadores, que motivou uma das maiores manifestações desse período e que obrigou o governo a recuar — e de como ainda hoje tem “sentimentos mistos” sobre a medida. Ainda assim, o antigo primeiro-ministro já não tem grandes dúvidas sobre o resultado prático: “Foi um erro político”.

“Eu é que era o chefe de governo e eu é que tinha de tomar a decisão. O Presidente da República alertou-me. O CDS preferiria outras coisas, mas não queria um aumento de impostos. E esta medida acabou por ser prosseguida por mim, justamente porque resolvia o problema. Mas foi um erro político, não tenho dúvidas. Se me perguntar ainda hoje o que é que eu tinha feito em alternativa, continuo a dizer que não sei. Porque não havia nada com essa dimensão que eu pudesse apresentar e que a troika aceitasse. Depois teve de aceitar, porque manifestamente o país desfez a medida e, portanto, eu não podia prosseguir com ela”, recorda.

Ainda em retrospetiva, Passos reconhece que cometeu também muitos erros na forma como comunicava com o país. “Os problemas de comunicação foram realmente grandes. Acredito que pudesse ter feito melhor comunicação do que aquela que fiz. Concentrei muita da informação, sobretudo aquela que era mais negativa, porque nunca quis mandar ministros informar o país das coisas difíceis que tinham de fazer. Fui sempre eu”, começa por notar.

“E há quem diga que tinha uma forma dura de comunicar, insensível. É provável que sim, mas era deliberado, de certa maneira. Porque se o primeiro-ministro aparecesse vacilante, choroso… Era preciso que as pessoas percebessem que havia um compromisso firme. As pessoas fora do governo, as pessoas dentro do governo e dentro das instituições. E essa foi a forma decidida que eu encontrei de fazer a comunicação. Admito que não fosse a melhor”, termina.

Passos sobre ontem: “Os anos da troika? Perderíamos tudo se não corresse bem”. Sobre hoje: “Tenho uma relação descomplexada com o PSD”



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