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“Porque é que não posso usar o meu nome para rimar em cima de um beat dos anos 80?” – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Abr 19, 2024

Ao longo dos anos, embora permanecesse sobretudo na sombra, o público foi-se apercebendo do contributo essencial de benji price na edificação da Think Music. Enquanto produtor, era um nome praticamente omnipresente nos créditos de todas as faixas e discos lançados. Além disso, assumia um terço da gestão do projeto, ao lado de ProfJam e do agente Nelson Monteiro. Não é algo de somenos — a Think Music revolucionou o circuito do rap em Portugal, abrindo caminho para novas sonoridades, estéticas visuais e formas de rimar, quebrando com os padrões há muito em vigor dentro do movimento. Foi um daqueles momentos que definem um “antes” e um “depois”.

benji price viria a unir-se ao parceiro ProfJam para o álbum SYSTEM (2020), uma obra-prima de rimas e flows inspirada sobretudo pelo universo de ficção científica de Matrix; e, já depois do fim da Think Music, estrear-se-ia a solo com o álbum ígneo (2022). Já nessa altura pensava em assumir o seu nome verdadeiro. benji price havia sido uma sugestão de ProfJam, não havia nenhuma ligação particularmente profunda ao nome. Mas era uma das tais regras não escritas do rap: todos devem ter um nome artístico.

“Nunca pensei: vou utilizar este nome artístico porque é muito fixe, porque é mesmo aquilo que quero. Para mim sempre foi algo um pouco artificial”, explica João Maia Ferreira. “Havia alguma dissociação em termos mentais. Sinto que a maior parte das pessoas só me via estritamente sob essa lente. benji price não é uma pessoa, é um rapper. E especialmente aliado ao facto de nunca ter dado muitas entrevistas, de nunca ter sido muito interventivo publicamente, de nunca ter dado muitos concertos, o único contacto que as pessoas tinham comigo era através da música que eu lançava — e do meu nome. E comecei a achar isso extremamente redutor. Pensei: não quero ser só isto. E sentia que já me tinha metido a mim mesmo nessa caixa. Ou seja, não ia conseguir alterar aquilo. Tinha mesmo de dizer às pessoas: eu existo além disto.”

[“Impala”, com Alex D’Alva Teixeira:]

Foi pai no ano de ígneo, o que só reforçou ainda mais o desejo de se livrar do peso que o nome benji price carregava. Inicialmente, chegou a pensar fazer uma trilogia de discos com o nome artístico. Mas rapidamente percebeu que este terceiro álbum já era fruto de uma nova fase. “Era importante mudar a página e iniciar um novo capítulo. Não queria mesmo perpetuar uma coisa com a qual já não me sentia confortável. A paternidade só reforçou mais a minha necessidade de ser autêntico, de passar um bom exemplo para o meu filho, de que nos devemos sentir confortáveis na nossa pele, e devemos referir-nos a nós mesmos da forma que queremos. Devemos mesmo ser quem nós queremos ser. E se o que quero ser é eu mesmo, não quero ser outra coisa, por consequência não posso utilizar mais um nome artístico.”

A par disso, João Maia Ferreira diz que a sua própria saúde mental estava interligada a esta mudança. “Muitas vezes passo por fases extremamente depressivas e de auto-sabotagem, de não gostar de quem sou e de como sou. São obstáculos que tenho de ultrapassar. Essa auto-aceitação e auto-apreciação passam também por gostar da minha identidade e não querer ter outra. Esse trabalho de mim próprio sinto que também passa por isto, por ter aí o meu nome exposto na montra.”

Apresentar-se como benji price fazia com que estivesse na “caixinha” chamada rap, com tudo o que isso implica. E João Maia Ferreira começou a identificar-se cada vez menos com muitos dos padrões do género, que vive quase num circuito à parte da música no geral.

“O rap é uma cultura muito competitiva e tóxica. Existe muito uma mentalidade de macho alfa, de dizer ‘eu sou o melhor, o mais forte e o mais incrível e bonito, e sou quem tem mais dinheiro’. E não quero acrescentar mais a isso. Quando me removi desse tipo de pensamento, tornei-me uma pessoa melhor. Porque só me tornei essa pessoa quando fui para o hip hop, na altura da Think Music. E dei por mim a pensar: não sou esta pessoa. Genuinamente que não quero saber do sucesso, das posses e dos feitos dos outros. E houve uma altura em que isso me começou a importar, só que isso não é quem eu sou, não é quem era antes nem quem sou agora. Então tive de fazer aqui um grande trabalho de recondicionamento mental para me tirar desse buraco em que sinto que me enfiei e em que também me enfiaram um bocadinho.”



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