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Os bastidores da escolha de Bugalho para as europeias e a “estupefação” de uma parte do PSD – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Abr 23, 2024

A escolha do jornalista e comentador Sebastião Bugalho só foi fechada definitivamente a cerca de três horas do início do Conselho Nacional, mas, apurou o Observador junto de fontes próximas do processo, já vinha a ser preparada por Luís Montenegro pelo menos desde meio da semana passada. Para se proteger, o líder foi deixando que o seu fiel escudeiro, Hugo Soares, fosse fazendo uma parte os contactos, mantendo em aberto um plano A (que na última semana foi sempre Bugalho) e um plano B (que era Rui Moreira). O líder do PSD manteve as duas opções em aberto até à véspera da aprovação do nome.

O núcleo duro de Luís Montenegro teve sempre medo que Sebastião Bugalho, confortável no espaço de comentário da SIC, acabasse por roer a corda. Mas, no final da última semana, terá começado a ceder e a hipótese começou a ganhar forma. No domingo, já convicto de que ia optar por Sebastião Bugalho, Luís Montenegro convidou Rui Moreira para ser o número dois da lista. Já a pensar numa aventura europeia, o presidente da câmara municipal do Porto não terá recusado de imediato, mas horas depois — ainda na noite de domingo e já depois de ter dito da CNN que lhe interessava o projeto europeu — terá enviado uma mensagem ao primeiro-ministro a dizer que não aceitava. O autarca terá explicado que, sendo o presidente da segunda maior autarquia do país, não podia sujeitar-se a ser o número dois de ninguém.

Ao início da manhã, já ia correndo que Moreira não estava particularmente inclinado a aceitar o desafio. Sem aceitar o não, Luís Montenegro voltou a ligar a Rui Moreira na segunda-feira de manhã para tentar convencê-lo a ser o número dois da lista. O autarca terá dito que não é não. Ou era primeiro ou nada feito. Mas a contra-proposta do primeiro-ministro ainda seria pior: convidou-o para ser o mandatário nacional da candidatura de Sebastião Bugalho, o que terá sido visto quase uma ofensa para Rui Moreira, que declinou também esse ainda mais desgraduado convite.

O segredo foi tal que Paulo Rangel, que, durante a tarde desta segunda-feira, em Luxemburgo, o primeiro vice-presidente do PSD, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros ainda defendia Rui Moreira das críticas de que estava a ser vítima por parte de elementos ligados ao PSD/Porto. Na véspera, à margem do 31.º Congresso do CDS, Nuno Melo elogiava Rui Moreira e a sua possível candidatura às europeias. À noite, no seu habitual espaço de comentário, na SIC, Luís Marques Mendes, próximo de Montenegro, voltava a defender que seria Moreira o candidato — já depois de o ter feito há oito dias.

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Esta segunda-feira, e já sabendo que Rui Moreira não seria o número dois — entre a Comissão Permanente (núcleo mais duro da direção do PSD, que terá mandatado o líder para fazer o convite ao comentador) e a Comissão Política Nacional, onde o nome foi aprovado antes de ser levado ao Conselho Nacional — Montenegro ligou a Sebastião Bugalho a convidá-lo formalmente — sabendo que o comentador aceitaria.

Sebastião Bugalho já tinha antes dado — confirmaram ao Observador fontes da AD — outras negas a Luís Montenegro. Rejeitou ser deputado à Assembleia da República, rejeitou ser governante (no caso secretário de Estado) e, perante este novo convite, terá tido o mesmo impulso, mas ficou mais indeciso. A notoriedade pública que alcançou como na SIC e o percurso de afirmação pública que estava a fazer como comentador político era algo que teria de abdicar para ir para Bruxelas, mas o líder do PSD (com a ajuda de Hugo Soares) convenceu Bugalho da oportunidade única que era liderar umas eleições num círculo nacional por um grande partido e viver momentos importantes na política e na diplomacia internacional.

À noite, no Conselho Nacional do PSD que ia aprovar as listas de candidatos, eram poucos — mesmo entre os dirigentes do partido — capazes de esconder alguma estupefação com a escolha. Na reunião, que decorreu à porta fechada, como é habitual, houve algumas intervenções discordantes — a de André Pardal, por exemplo, que se tem procurado afirmar como oposição interna, mas muito minoritárias — houve apenas oito votos contra.

Cá fora, no entanto, muitos congressistas franziam o sobrolho e assumiam que a escolha comporta muitos riscos — e que só não partiu o partido porque, estando no poder, o cimento é outro. “Estivesse o PSD na oposição e o Conselho Nacional de hoje teria sido uma gritaria pegada“, desabafava com o Observador um dos conselheiros presentes. “A lista é fraca e o cabeça de lista é, à falta de melhor expressão, diferente”, acrescentava outro. “Isto é um risco enorme”, assumia um dirigente social-democrata. “Estou estupefacto”, sentenciava um líder distrital.

Já Luís Montenegro não parece ter dúvidas da escolha que fez e não poupou elogios ao seu novo candidato, “um jovem talentoso, um jovem que o país conhece, aqui e ali até polémico, que afronta, é disruptivo, estimula a confrontação com respeito democrático”. “É o exemplo do que nós queremos: que vale a pena estar em Portugal, lutar por Portugal e ir para a Europa defender os interesses e as cores de Portugal. O Sebastião Bugalho é com toda a honra, com muita convicção, o candidato que tenho para vos apresentar. Estou convencido que vai fazer a diferença nas próximas eleições europeias.”

Depois de aprovadas as listas por “larga maioria”, Hugo Soares falaria aos jornalistas para repetir os elogios ao candidato da Aliança Democrática e para dizer que a hipótese de Rui Moreira foi uma “efabulação da comunicação social”. Com um pormenor: o secretário-geral do PSD teve sempre o cuidado de dizer que Bugalho fora a “única escolha” do presidente do partido para “encabeçar” a lista — o que é tecnicamente verdade. O que Soares não desmentiu foi a existência de um convite a Rui Moreira para integrar a lista.

O secretário-geral do PSD referiu-se ainda a Sebastião Bugalho como um “candidato de futuro”, com “provas de grande competência técnica nos demais assuntos”, que tem “posições firmes” em diversas matérias e que “não claudica nunca no que são as suas convicções”. “É uma grande candidatura, que os portugueses se podem rever.”



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