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Três surfistas apanharam a última onda até ao México, onde foram assassinados quando resistiam a uma tentativa de roubo – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Mai 9, 2024


Callum Robinson, um jovem australiano de 33 anos, vivia em San Diego, na Califórnia, onde perseguia o seu sonho de ser um jogador de lacrosse profissional. Jake, o seu irmão mais novo, de 30 anos, deixou a Austrália para o visitar durante duas semanas. Os dois irmãos, com o amigo norte-americano de Callum, Jack Carter Rhoad, também de 30 anos, tinham planeado uma viagem de sonho: depois de passar alguns dias na Califórnia, cruzar a fronteira para o México e surfar ao longo da Baixa Califórnia (em espanhol, Baja California). A morte encurtou a viagem e poucos dias depois de serem dados como desaparecidos, os corpos dos três surfistas foram encontrados num poço de 15 metros de profundidade.

Das fotografias de praias e céu azul ao silêncio total

Antes de partir para o México os dois irmãos foram ao célebre festival de música Coachella, na Califórnia. O festival acabou dia 21 de abril. Cinco dias depois, Callum publicou uma história no Instagram, com a legenda “So it begins…” (‘Assim começa…’), na qual se podia ver uma carrinha Ford branca com pranchas numa estrada de terra batida. Acumulam-se várias fotografias de praias, céu azul e descampados. A última imagem é de dia 27 de abril: os três rapazes na praia de San Miguel.

Captura de ecrão de uma história de Instagram de @callum10robinson

Os jovens pararam então de partilhar publicações no Instagram e não chegaram ao alojamento perto de El Rosarito, nem aos seguintes lugares que tinham planeado. Este silêncio levou a que um amigo denunciasse o desaparecimento dos três ao Ministério Público (em espanhol, Fiscalía) da Baixa Califórnia, a 1 de maio, como avançou o jornal espanhol El País. Ainda que longe, a mãe dos irmãos australianos, Debra Robinson, lançou um pedido de ajuda para encontrar os seus filhos num grupo na rede social Facebook.

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O desaparecimento dos três rapazes ganhou notoriedade, apressando assim a investigação das autoridades locais, que encontraram, um dia depois da denúncia, o lugar de acampamento dos três amigos. Estes ter-se-iam instalado em La Bocana de Santo Tomás, um local inóspito, sem rede e de difícil acesso. Aqui, segundo avançou Elena Andrade, procuradora-geral da Baixa Califórnia, em comunicado de imprensa, citado pela CBS News, foram encontrados rastos e pegadas que apontariam para o arrastar de algo volumoso e pesado, balas de uma arma de fogo e hastes de tendas e garrafas de plástico, levando a crer que os desaparecidos tinham sido atacados de forma violenta.

No mesmo comunicado de imprensa, a procuradora-geral da Baixa Califórnia apresentou um hipotético cenário daquilo que terá sido a morte dos três amigos. Muito embora se tenham instalado num lugar isolado, não estavam sozinhos: durante a noite de 28 ou 29 de abril, os assassinos viram a carrinha Ford. De acordo com Andrade, o objetivo seria roubar peças deste veículo, mas os jovens terão oferecido resistência, o que terá precipitado os acontecimentos e levado às suas mortes.

Investigação e suspeitos 

Uma fonte judicial local avançou à CNN que as autoridades tinham encontrado a carrinha Ford branca, com a qual os jovens tinham começado a sua viagem, queimada, num rancho perto da cidade de Santo Tomás, no interior da Baixa Califórnia.

Os investigadores, avançou o El País, acreditam que tudo começou com um dos jovens a resistir ao assalto e a ser imediatamente alvejado. Os outros dois rapazes terão saído em defesa do amigo e foram também alvejados. As autoridades apontam para “uma perda de controlo da situação” por parte daqueles que inicialmente queria executar um roubo: o plano evoluiu para um assassinato e obrigou os assassinos a “arrastar os cadáveres até um poço” de 15 metros de profundidade, onde os corpos foram encontrados a 3 de maio.

A procuradoria geral da Baixa Califórnia, como avançado pela CBS News, está a interrogar três cidadãos mexicanos. Um deles foi identificado como sendo Jesús Gerardo, conhecido como El Kekas – que significa quesadillas ou tortilhas de queijo, pratos tradicionais mexicanos – e com um registo criminal vasto, com acusações de violência doméstica, roubo de veículos e tráfico de drogas. Os outros dois suspeitos são uma mulher encontrada com o telemóvel de uma das vítimas e um outro homem. É incerto se este último será julgado, pois estava acusado de rapto antes do aparecimento dos cadáveres. Andrade disse que certamente há mais pessoas envolvidas e sublinhou não poder divulgar as declarações dos suspeitos porque a lei mexicana o impede.

Ainda é possível fazer turismo seguro no México?

Segundo o portal Statista, em 2022, o turismo representava 8.5% do PIB do México, 126 mil milhões de euros, sendo um setor significativo para o país. Também no ano de 2022, dados do Departamento de Estado mostram que 192 cidadãos norte-americanos foram mortos no México, como indicado pelo The New Times.

O secretário de defesa do México, o general Luis Cresencio Sandoval, revelou, este ano, que a Baixa Califórnia é o estado com o número mais elevado de roubo de veículos e o segundo estado no México com o número mais alto de homicídios, na sua maioria relacionados com o tráfico de droga e crime organizado.

Desde 2007, como avança este artigo do The New York Times, que os surfistas da Baixa Califórnia “já não falam só de ondas”, questionam-se “quando será” a sua vez de morrer. Vários surfistas foram mandados parar a caminho do praia por homens armados que os obrigam a descer das carrinhas e roubam-nas. Pat Weber, que tinha uma academia de surf em Tijuana, decidiu deixar o México para atrás depois de ter sido atacado por dois homens armados que abusaram sexualmente da sua mulher e depois roubaram o computador, a câmara, o equipamento e o dinheiro que tinham.

Perante este cenário, a procuradora-geral da Baixa Califórnia fez questão de garantir que as vítimas “não foram atacadas por serem turistas”, com o objetivo de salvaguardar a prática de turismo seguro no estado mexicano. Segundo o El País, a celeridade com a qual a investigação avançou evidenciou a diferença entre as investigações de desaparecimento de pessoas locais e estrangeiras, sendo que há pelo menos 2.700 pessoas desaparecidas só no estado da Baixa Califórnia.

Reações: reuniões de surfistas e redes sociais

A descoberta dos cadáveres, relata o The Guardian, levou dezenas de pessoas a reunirem-se na praça principal de Ensenada, a cidade mais próxima, para manifestar a sua tristeza com a morte dos três jovens. “Ensenada é uma vala comum”, “Queremos uma praia segura”, “Não à violência” eram alguns dos gritos de revolta escritos nos cartazs levados para o protesto.

Também na zona de San Miguel se assistiu a uma homenagem aos três jovens, com as mesmas reivindicações. “Somos todos irmãos. Na água, não importa de que país vimos, somos todos irmãos”, disse, ao The Guardian, o shaper (profissional que constrói pranchas de surf) Eduardo Echegaray, explicando a comoção sentida.

Captura de ecrã do perfil de Instagram de @stevensonulax

As redes sociais também se encheram de publicações a recordar as vítimas. Callum Turner estudou na Universidade de Stevenson, em Maryland (EUA), e, depois da sua morte, o grupo de lacrosse da instituição publicou na rede social Instagram uma imagem do jovem australiano, relembrando o seu “sorriso cheio de charme”.  A namorada de Callum, Emily Horwath, deixou uma mensagem de despedida também através do Instagram: “Este homem mudou a minha vida de formas que eu nem consigo descrever. Ainda não consigo conceber um mundo sem a sua energia. Sinto-me imensamente grata por tê-lo amado”.

Captura de ecrã de uma história de Instagram publicada por @emily_livia

A embaixadora australiana no México, Rachel Mosey, através da rede social X (antigo Twitter) disse estar “de coração partido” pela morte dos três rapazes. Os pais dos irmãos australianos, Debra e Martin Robinson, agradeceram o apoio dos amigos e da comunidade, declarando que “o mundo se tornou um lugar mais escuro desde o que se passou no México”, segundo o jornal australiano WAToday (vídeo disponível aqui). Nos Estados Unidos, uma amiga da família de Jack Carter Rhoad criou uma página no GoFundMe para financiar os custos de repatriação dos corpos e os advogados para o processo.





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