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Efeito dos juros altos chegaram à economia portuguesa que vai resistindo mais do que o esperado – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Jun 1, 2024

O primeiro trimestre do ano foi de campanha eleitoral. O Governo esteve em gestão corrente. As eleições de 10 de março trouxeram um Executivo de diferente cor política. O momento, a par de uma expectativa do que o BCE (Banco Central Europeu) possa fazer, travaram os investimentos em Portugal no primeiro trimestre do ano, segundo os dados da evolução do PIB (Produto Interno Bruto) dos três primeiros meses do ano. A economia portuguesa cresceu, em termos homólogos, 1,5% nesse período, mais do que inicialmente estimado pelo INE em abril (que apontava para 1,4%), tendo, em cadeia, subido 0,8% (mais do que os 0,7% antecipados).

A economia portuguesa “apresenta um nível de produto equivalente a 106,3% do quarto trimestre de 2019, o último período normal antes da pandemia”, atenta João Borges da Assunção, da Católica, recordando, ainda, que a “variação homóloga foi de 1,5% após 2,1%, sendo esta descida explicada pela base exigente do primeiro trimestre de 2023, recordando o elevado crescimento em cadeia (1,5%) então verificado”.

A procura externa, segundo o INE, suportaram esse crescimento do PIB, com as exportações a subirem mais do que as importações, também elas travadas pelo travão no investimento. Mas também pelo menor consumo de bens duradouros por parte das famílias.

As elevadas taxas de juro começam gradualmente a transmitir os seus efeitos desfavoráveis ao rendimento disponível das famílias e à tesouraria das empresas, penalizando o consumo privado e o investimento”, comenta Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, em respostas escritas ao Observador, acrescentando que “as famílias ponderam cada vez mais a compra de bens duradouros, refletindo a crescente incerteza perante as elevadas taxas de juro e a desaceleração económica”.

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Também o Banco BPI, numa nota breve aos dados do INE, salienta a queda de 3% em cadeia da formação bruta de capital fixo (FBCF) (investimento puro e duro), com a variação homóloga a registar uma subida de 0,3% (o que compara com o crescimento de 4% no quarto trimestre).

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“O comportamento da FBCF resultará de dois aspetos: adiamento de decisões de investimento associados à perspetiva de que os custos de financiamento começariam, em breve, a refletir as perspetivas de redução das taxas de juro pelo BCE; e ambiente de maior incerteza associado à realização de eleições antecipadas em março 2024”, indica o BPI. Paulo Rosa aponta também o recuo no investimento em equipamentos de transporte e outras máquinas em particular como podendo ser justificado “pela gestão prudente das empresas perante as eleições de 10 de março”.

Já João Borges de Assunção, coordenador do NECEP (núcleo de estudos da Católica), não atribui fator predominante às eleições. “Os dados do sentimento económico tiveram uma ligeira queda desde o anúncio das eleições, mas dizer que foi ‘devido’ às eleições parece-me ousado”, comenta ao Observador.

O investimento, em termos homólogos, cresceu 1,5%, sendo que há um ano, nesse mesmo período, e em comparação com o anterior anterior tinha caído 4,4%. No trimestre anterior tinha subido 3,6%. Segundo os dados do INE, a formação bruta de capital fixo também desacelerou, passando de uma taxa de crescimento de 4,0%, no quarto trimestre, para 0,3%, enquanto o contributo da variação de existências para a subida homóloga do PIB foi +0,2 pontos percentuais no primeiro trimestre, quando tinha caído 0,1 pontos no trimestre anterior.  “No que respeita ao contributo das existências, o seu comportamento no primeiro trimestre pode ser indicativo de aumento de produção no segundo trimestre, o que a verificar-se é positivo para o comportamento do PIB no segundo trimestre de 2024”.

O Banco de Portugal aponta para um crescimento, em cadeia, do PIB do segundo trimestre de 0,6%, para uma subida anual, face a 2023, de 2%.

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Neste momento, o Banco de Portugal é mesmo o mais otimista nas projeções anuais. FMI e Comissão Europeia antecipam uma subida do PIB em 2024 de 1,7%, estando as projeções da OCDE e do Conselho de Finanças Públicas nos 1,6%. O mais pessimista é mesmo o Governo que no programa de estabilidade apontou um crescimento anual de 1,5%, em políticas invariantes, ou seja sem considerar qualquer efeito de novas medidas tomadas pelo Executivo.

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Estando as empresas a travar investimento e as famílias a adiar compras à espera do BCE, os indicadores da inflação voltam a pôr dúvidas na equação. Se parece certo que na reunião de 6 de junho, o Banco Central Europeu desça taxas as dúvidas fixam-se na trajetória futura. A inflação em maio, na zona euro, voltou a subir para 2,6%, acima do esperado, “mas ainda dentro do quadro de um processo de desinflação”, acrescenta João Borges de Assunção que, no entanto, deixa uma nota: “Ainda assim, penso que o BCE poderia ponderar um adiamento da descida das taxas de juro na próxima semana”, na medida em que “a inflação subjacente se mantém muito elevada e ainda não dá sinais incontroversos de que a inflação na zona está controlada”.

A inflação subjacente (excluindo energia e produtos alimentares) subiu para 2,9% em termos homólogos.

“Em termos de implicações para a política monetária, os dados publicados mostram uma inflação próxima dos 2%, mas ainda acima do objetivo e com maior inflação nos preços mais inerciais”, indica o BPI, acrescentando que, assim, “os progressos na descida da inflação refletidos nestes números permitirão ao BCE efetuar uma primeira descida de taxas (-25 pontos base) a 6 de junho, embora favorecendo uma atitude cautelosa nas descidas seguintes do BCE para o resto do ano”.

O que foi a indicação dada recentemente pelo economista-chefe do BCE, Philipe Lane, para quem, depois da descida previsível das taxas de juro em junho, deve ser considerada uma contenção nos cortes seguintes. Os juros devem continuar em “terreno restritivo” pelo menos até ao final do ano, considera o economista irlandês.

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Em Portugal, a inflação também cresceu. Os preços ao consumidor, em maio, subiram 3,1%. O que levou o BPI a fazer uma “ligeira revisão em alta da taxa de inflação média em 2024, para 2,5%”. Para esta entidade, “o número do IPC de maio põe em evidência aquilo que já vínhamos alertando: o processo desinflacionista será muito arrastado e não isento de sobressaltos como este”. Ainda que parte do comportamento tenha resultado do efeito base. É que em maio de 2023 houve o registo de uma redução mensal por via da isenção de IVA numa cesta de produtos alimentares. O BPI alerta, no entanto, que “a inflação do agregado dos serviços como um todo é neste momento o grande suporte para o arrastamento da cifra da inflação” e, apesar de ainda não haver esse dado para maio, “em abril as classes muito intensivas em Serviços (Hotelaria e restauração, Comunicações, Saúde) contribuíram em cerca de 40% para a variação homóloga dos preços. Nos primeiros quatro meses de 2024 o agregado dos Serviços explica em média 83% do IPC Global e tem mostrado grande persistência acima dos 4%”.

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O tom do BCE vai contribuir nos próximos trimestres, também, o consumo privado que ainda assim se mostrou robusto nos primeiros três meses do ano que, para muitas classes, trouxe subidas salariais. O NECEP vê, nos dados do INE, que “apenas o consumo privado aparenta prosseguir uma trajetória de franca recuperação, evidenciando uma inesperada resiliência num contexto ainda marcado pela inflação”.

As despesas da família cresceram 0,7% em termos homólogos no primeiro trimestre, depois de subirem 1,6% no trimestre anterior, com uma queda de 3,5% nas compras de bens duradouros e uma desaceleração nos bens não duradouros e serviços (de 1,2%, para 1,1% no primeiro trimestre). Em cadeia, as despesas das famílias aumentaram 1% (face aos 0,7% no trimestre anterior), crescendo 1,4% nos bens não duradouros e serviços (0,6% no trimestre precedente) e diminuindo 2% nos duradouros (taxa de 1,4% no quarto trimestre). A tal ponderação na compra de bens duradouros referida pelo economista do Banco Carregosa.

Com as possíveis descida das taxas, o rendimento disponível poderá ter impacto na evolução próxima do consumo privado.

O crescimento de 1,5% do PIB está diretamente relacionado com o saldo da procura externa. Esta responde por um terço do crescimento homólogo registado no primeiro trimestre, “mas é o abrandamento das importações maior que as exportações que contribuem para uma melhoria das contas externas, sinalizando uma desaceleração dos gastos das famílias e das compras das empresas de bens e serviços estrangeiros”, indica Paulo Rosa.

Com efeito, este menor crescimento das importações está relacionado quer com o travão no investimento, quer com o menor consumo de bens (especialmente duradouros) por parte das famílias.

O contributo da procura externa líquida para a variação em cadeia do PIB “voltou a ser positivo”. Mas também o efeito preço nas importações pesou, em particular devido à queda nos preços relacionados com produtos energéticos, dos quais Portugal é importador em quantidades.

Mas também aqui a tendência pode ser de sinal contrário, já que um maior aumento no consumo e no investimento poderá conduzir a mais importações.

No global do trimestre, os dados apontam para uma tendência positiva, o que levou o BPI a rever em alta a perspetiva para 2024 de 1,6% para 1,7%. “Esta tendência dever-se-á reforçar ao longo do ano, na medida em que continuamos a antecipar que 2024 será marcado pela consolidação do processo de desinflação, pelo início da inversão do ciclo de taxas de juro por parte do BCE, (contribuindo para o alívio das condições de financiamento dos agentes económicos)”, processo que “permitirá às famílias uma melhoria do rendimento disponível que poderão alocar a consumo e poupança”. Do lado das empresas, “a redução dos custos de financiamento, juntamente com a execução dos fundos europeus, dará suporte ao investimento”. Daí que o crescimento possa ser “especialmente impulsionado pela procura interna, na medida em que o consumo privado continua suportado por um mercado de trabalho resiliente e pelo investimento que tenderá a ser estimulado pela execução dos fundos europeus, o que por sua vez faz antecipar um crescimento mais forte das importações face a 2023; as exportações poderão ter um comportamento um pouco mais débil, refletindo a fragilidade da atividade nos principais parceiros comerciais”.

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