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Chico, um espalha brasas que acende a chama sem passar pelas brasas (a crónica do Portugal-Finlândia) – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Jun 4, 2024

Pela primeira vez, Roberto Martínez podia conjugar verbos que até aqui não tinham existido. O verbo testar, o verbo preparar, o verbo optar. Quando assumiu o comando da Seleção Nacional, o técnico espanhol, apenas o terceiro estrangeiro a liderar a equipa portuguesa, teve apenas tempo para escolher jogadores, aferir sobre a condição física de jogadores e criar uma identidade em vários sistemas táticos que guiasse os jogadores. Em dez encontros, fez dez vitórias e bateu uma série de recordes. Depois da qualificação para o Europeu de 2024, teve depois o período de março entre jogos particulares com Suécia e Eslovénia para fazer aqueles que seriam os últimos exercícios antes do teste dos 26 convocados para a fase final. Agora, começava uma nova fase. A fase de pensar, planear e executar tendo em vista uma prova que visava fazer sete encontros num mês até à final no Olímpico de Berlim. E era neste contexto que chegava o primeiro teste com a Finlândia.

Portugal vence Finlândia por 4-2 no primeiro teste com bis de Bruno Fernandes na segunda parte

“Temos um percurso de preparação muito importante. O objetivo é termos os jogadores individualmente a um nível ótimo. Gostei muito da vontade e empenho no primeiro treino, é continuar. A parte física é importante mas qualquer jogador precisa de não ter fadiga mental. Temos a oportunidade de trabalhar com os jogadores na recuperação. Nestes particulares podemos utilizar os vários jogadores convenientemente. Os jogadores demonstram orgulho e frescura por estar aqui. Estratégia? É continuar o trabalho que fizemos no apuramento. Os momentos de forma dos jogadores, os adversários, os conceitos… São a resposta. Precisamos de ser uma equipa flexível e vamos continuar a trabalhar neste sentido”, explicara Roberto Martínez, que logo no arranque da preparação para o Europeu teve uma má notícia com a lesão de Otávio, médio do Al Nassr que se apresentou com uma rotura muscular e que foi substituído entre os 26 por Matheus Nunes.

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“Foi uma escolha natural e óbvia. Durante o estágio de março realizou um jogo muito bom contra a Suécia e fez o papel de Otávio. Com o trabalho que fizemos nos seis estágios temos os jogadores preparados. Deixa-se triste perder o Otávio porque é um jogador que dá tudo. Acontece mas deu-me tristeza. Se receio mais algum problema? Faz parte, todos os torneios têm este período onde pode haver lesões. Há outras seleções que já perderam também jogadores mas estou muito contente com o trabalho da equipa médica”, comentara o selecionador, antes de abordar outras ausências neste primeiro particular com os finlandeses entre Pepe, Nelson Semedo e a dupla Ronaldo e Rúben Neves, que se juntam ao grupo apenas na próxima sexta-feira.

Sendo certo que, quando o grupo estiver completo, haverá uma multiplicidade de trabalhos e objetivos bem diferente do atual momento, a questão dos possíveis problemas físicos que impossibilitassem algum jogador de participar no Europeu era o maior “risco” mas era também nesse sentido que João Palhinha, médio do Fulham, queria dar o mote para os jogos particulares que Portugal teria pela frente. “Se eu tenho medo de meter o pé? Eu meto sempre o pé, se não meter não sou eu… Apesar de serem particulares, ninguém se vai poupar dentro de campo. Quando estamos no jogo isso fica para trás. Queremos interpretar melhor as ideias do treinador”, assumira o jogador formado no Sporting que regressava agora ao Estádio José Alvalade.

Apesar de só ter jogado 45 minutos, Palhinha deu também em campo um exemplo a todos os outros tal como João Neves. As características de ambos são diferentes apesar de ocuparem em alguns momentos os mesmos terrenos do campo, a estatura ainda mais, mas tiveram o ponto comum de mostrarem aquilo que Portugal terá de levar para a Alemanha: só no dicionário é que sucesso vem antes de trabalho. E num encontro frente a uma Finlândia demasiado frágil para colocar em teste a defesa e as transições de Portugal, essa foi a ideia principal que saiu de um primeiro teste onde já foi possível ver esquemas táticos mais trabalhados, algumas movimentações dos laterais e do 9 e duas dores de cabeça que se irão tornar latentes em qualquer sistema tático que Martínez utilize: quem sai da equipa entre Palhinha, João Neves, Vitinha e Bruno Fernandes e onde pode entrar Francisco Conceição? É que, de facto, o talento não se mede aos palmos.

Roberto Martínez optou por começar com várias alterações num onze que era inédito logo à cabeça por ter dois estreantes em equipas iniciais, João Neves e Francisco Conceição (que foi vaiado no momento em que se ouviu o seu nome na apresentação dos dois conjuntos), mas existia a dúvida de como poderiam distribuir-se os jogadores em campo. Fosse pelos blocos demasiado baixos da Finlândia sem bola quando a bola passava pela primeira fase de construção de Portugal, fosse por uma questão de estratégia, a Seleção optava por recuar João Palhinha para uma linha de três entre os dois centrais, projetava os dois laterais e colocava Vitinha e João Neves em linha do meio para dar soluções pelo meio. No entanto, faltava velocidade, outro tipo de movimentos e maior pragmatismo no último terço para derrubar a densa muralha contrária.

Foi assim que, num ambiente ainda “morno”, passaram 15 minutos sem qualquer oportunidade ou remate, sendo que a Finlândia só por uma vez teve uma ação na área nacional com Kallman a passar por António Silva antes do passe rasteiro cortado com autoridade por Rúben Dias. Faltava algo que, não aparecendo na bola corrida, chegou de bola parada: Vitinha marcou um canto à esquerda largo ao segundo poste, Rúben Dias conseguiu fazer uma finta de corpo ao adversário direto e ficou com caminho aberto para desviar de cabeça para o 1-0 (17′). Portugal ficava em vantagem e essa condição deu o mote para uma melhoria no rendimento com bola, sempre com outra qualidade pela esquerda com um Nuno Mendes a tentar ganhar lugar e um Rafael Leão a confirmar o bom momento. João Cancelo, numa segunda bola recuperada na direita após cruzamento de Diogo Jota, também tentou visar a baliza mas a bola ficou nas malhas laterais (22′).

Com João Palhinha a controlar todas as tentativas de transição contrárias como que dando o exemplo para os restantes companheiros e Portugal com várias recuperações no meio-campo contrário, Portugal manteve o domínio entre fases de maior aproximação à baliza de Hradecky e outras de maior controlo e circulação em busca do espaço. Francisco Conceição teve duas diagonais da direita para o meio com outros tantos remates (aos 33′ muito ao lado, aos 39′ para defesa do guarda-redes finlandês), Nuno Mendes teve mais uma bola em que apareceu na área a desviar de cabeça um cruzamento de João Cancelo (36′) e o segundo golo chegaria ainda nos descontos da primeira parte, com Francisco Conceição a ganhar uma grande penalidade que foi assinalada após intervenção do VAR para Diogo Jota não perdoar da marca dos 11 metros (45+4′).

Ao intervalo, Roberto Martínez trocou metade da equipa com mexidas no posicionamento de mais alguns jogadores. Assim, João Neves surgia como 6 a fazer aquilo que Palhinha fazia mas com maior tração à frente tendo António Silva e Gonçalo Inácio como laterais, João Cancelo surgiu no flanco esquerdo com Diogo Dalot no corredor contrário, Bruno Fernandes e Vitinha a construir pelo meio e Francisco Conceição e Pedro Neto no apoio a Gonçalo Ramos. Quem beneficiou mais disso foi João Neves, que passou a ter mais bola a passar pelos seus pés na primeira fase de construção, e João Cancelo, que surgiu logo a abrir duas vezes pelo meio a rematar de pé direito para grandes defesas de Hradecky (48′ e 50′). Não foi aí, foi pouco depois: cruzamento de Dalot, amortecimento de Gonçalo Ramos de costas, finta para dentro de Francisco Conceição antes de se ouvir um “Chicooooo” ao lado e assistência para o remate sem hipóteses de Bruno Fernandes (56′).

A partir daí, houve um apagão geral na zona de Alvalade. Um apagão em campo, com Portugal a desligar o seu motor e a circular bola sem qualquer objetivo ou ambição. Um apagão fora de campo, com os adeptos a descansarem da boa entrada no segundo tempo enquanto recuperavam o fôlego. Um apagão que afetou todos menos Pukki, o veterano avançado finlandês que saltou do banco aos 65′ e precisou apenas de cinco minutos e duas oportunidades perante as distrações gerais da defesa nacional para reduzir a desvantagem para 3-2 (73′ e 77′). Só aí deixou de haver apagão e voltou a chama de jogar à bola. Uma chama que, mais uma vez, teve Francisco Conceição como destaque, a fazer mais uma assistência para Bruno Fernandes fixar o 4-2 final após ter recuperado a bola em terreno adiantado (84′) e a ter mais um remate perigoso (90′) com essa valia de, mesmo com o encontro resolvido, nunca ter desligado da ficha a mostrar que é um “reforço”.



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