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O inferno do eng. Guterres  – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Jun 8, 2024

Nos intervalos do apoio ao regime de Pol Pot e a sistemas de extermínio similares, o filósofo Jean-Paul Sartre famosamente proclamou que o Inferno são os outros. Num raro momento em que não reproduz propaganda do Hamas ou posa para o retrato com tiranos de renome, o filósofo António Guterres menos famosamente corrigiu: o Inferno é a situação actual do clima. “Inferno climático”, disse o secretário-geral da ONU no Dia Mundial do Ambiente. Em matéria de definições do lugar de suplício eterno, desde Dante e Milton que isto tem sido sempre a descer.

Já o eng. Guterres tem vindo sempre a subir, em matéria de definições alarmistas que, vai-se a ver, não alarmam ninguém. Há quase um ano, a criatura decretara o fim do Aquecimento Global e o início da Era da Ebulição. “A menos que haja uma mini-Era do Gelo nos próximos dias, Julho de 2023 quebrará recordes”, afirmou então, fundamentado, rezavam as agências noticiosas, em informações da conceituada emissora Al Jazeera. Como as idades do gelo se formam e ocorrem devagarinho (os meus esforçados estudos no Google mostram que por sinal estamos a viver a mais recente, iniciada há 2,6 milhões de anos) e não entre terça e quinta-feira, os tais recordes se calhar foram mesmo quebrados em Julho passado. Quebrados, espatifados e reduzidos a cinzas causadas por temperaturas nunca sentidas pela humanidade ou, vá lá, pelos termómetros das limousines em que o eng. Guterres é transportado.

A Era da Ebulição, coitadita, não durou onze meses. E os chineses, perdão, os publicitários, perdão, os especialistas que assessoram o eng. Guterres tiveram que trabalhar arduamente cerca de vinte minutos para desencantar nova tendência para a estação: o Inferno Climático, a loucura do Verão que aí vem. Depois de gasto o vermelho sangue, não ouso antecipar a cor com que os boletins meteorológicos vão ilustrar uma tarde quentinha de Agosto. Mas estou ansioso por descobrir. Aliás, mal posso esperar pelas hipérboles seguintes do eng. Guterres, que elevou a fasquia a ponto de dificultar a tarefa dos assessores em 2025, 2026 e por aí fora. Churrasco Climático? Crematório Climático? Escalfeta climática? Queimadura de Terceiro Grau Climática? Após o Inferno é complicado manter o embalo. A esperança dos desgraçados é que o mundo acabe antes disso, ou no prazo de 18 meses concedido pelo nosso homem nas Nações Unidas para que se faça não sei o quê com os combustíveis fósseis. De uma coisa estou certo: em nome da coerência e da vergonha na cara, o nosso homem não voltará a viajar de avião. Nem sequer para visitar o Qatar, hábito que pratica com curiosa frequência.

Suponho que as “renováveis” pagam bem, e que determinadas personalidades no Qatar e na China e onde calha pagam melhor para corroer o Ocidente, e que muitos governos ocidentais apreciam o pânico para terminar de sufocar o contribuinte com impostos “verdes”. Porém, não possuo provas de que o empenho do eng. Guterres nestes temas seja motivado pela cobiça. Uma segunda hipótese, avançada por alguns, é o eng. Guterres ser um boneco manipulável por interesses que o transcendem e capaz de repetir enormidades a pedido, convencido de que as enormidades são autênticas. Também não vou por aí.

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A minha tese, ainda em esboço, é a de que a retórica do eng. Guterres é tão primitiva que não pode servir os objectivos dos que de facto se preocupam com a evolução do clima. Pelo contrário: o primitivismo da retórica parece amanhado à medida de objectivos opostos. Se os senhores das petrolíferas e afins quisessem ridicularizar a ortodoxia relativa às “alterações climáticas”, dava-lhes imenso jeito despejar um verbo de encher num cargo de notoriedade internacional, a aliviar-se diariamente de patacoadas em crescendo. Não arrisco decidir se o verbo de encher faria semelhante figura a troco de um bónus ou se a pratica de borla e por engano.

Confesso que, por puro egoísmo, os efeitos do clima no futuro do planeta me importam pouco. Ou não me importam mais do que aos campeões da “causa” que apenas condenam o uso de combustíveis fósseis quando é a populaça a usá-los. A verdade é que, à revelia de toda a histeria patrocinada em vigor, consigo imaginar cientistas bem intencionados, daqueles que crêem nalguma influência da acção humana nas mudanças ambientais, daqueles que não recebem fartos subsídios pelas suas convicções, daqueles que são coerentes com os respectivos estudos e se deslocam de bicicleta até em passeios ao estrangeiro. Imagino que devem ser uns quinze ou dezasseis na Terra inteira. Imagino o desalento que devem experimentar de cada vez que o eng. Guterres abre a boca e, através de sucessivos delírios, lhes prejudica a investigação séria. E imagino, por fim, a conversa entre dois deles:

– Ouviste?

– O quê?

– O indivíduo… O que se assemelha a um trompetista de mariachi… Voltou a falar.

– Jura! E o que lhe saiu agora?

– Agora veio com o Inferno Climático.

– O Inverno Climático?

– Não: o Inferno.

– Valha-me Deus… Não era a Ebulição?

– Pelos vistos não pegou. Quer ver se o Inferno pega. E de brinde balbuciou uns palpites acerca dos dinossauros e do meteoro…

– Meteoro?

– Diz que nós somos um.

– Há sujeitos que são um calhau, isso há…

– E disse que…

– Por favor não continues a deprimir-me. Mas o indivíduo não percebe que essas atoardas só retiram credibilidade a qualquer abordagem sensata do assunto?

– Ninguém percebe se ele percebe. De resto, ele não está ali para ser credível ou sensato.

– Chiça! Está ali para quê, então?

– Excelente pergunta, mas a ciência não explica tudo.

– No caso dele não explica nada.



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