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O que é o psicodrama? Sete respostas sobre a psicoterapia que junta psicologia e teatro – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Jun 9, 2024

Fundado por pelo médico e psicólogo Jacob Moreno no início do século XX, o psicodrama é “psicoterapia de ação”, tendo muitas diferenças e particularidades em relação a outras psicoterapias, já que tem as suas raízes não só na psicologia, mas também no teatro e sociologia.

Habitualmente, nos modelos de psicoterapia mais conhecidos, a intervenção é feita exclusivamente pela palavra, através do diálogo e da relação entre o terapeuta e os pacientes. Já no psicodrama, apesar de haver momentos de conversa e partilha, a intervenção principal é feita através da ação, mais concretamente, de uma dramatização de situações e da representação de papéis feita em grupo.

Os grupos de psicodrama são conduzidos por um ou dois psicoterapeutas — os psicodramatistas — que podem ser psiquiatras ou psicólogos com formação em psicodrama. Cada grupo pode ter 12 pessoas, no máximo, e reúne habitualmente uma vez por semana, num espaço fixo e em horário fixo, em sessões que duram entre uma hora e meia e três horas.

As sessões, explica Susana Silva Ribeiro, psicóloga clínica e psicodramatista formada pela Sociedade Portuguesa de Psicodrama, começam sempre com o grupo reunido em volta do palco ou algo que o simbolize — como um tapete — e dividem-se em três fases:

  1. Aquecimento. Período de conversa entre os elementos de grupo;
  2. Dramatização. Quando o protagonista sobe ao palco;
  3. Comentários ou partilha. O grupo volta a sentar-se e reunir para conversar sobre a dramatização.

“No psicodrama, mostra-se, não se descreve”, diz a psicodramatista. “Se um elemento do grupo traz um conflito com alguém”, durante a conversa inicial — o aquecimento — e é escolhido para ser o protagonista da dramatização, “é incentivado a expressar diretamente o que sente com a pessoa em conflito quando sobe ao palco para fazer a sua dramatização da situação.” A pessoa com quem está em conflito, explica a terapeuta, “pode ser representada por outra pessoa do grupo, pelo co-terapeuta [um dos terapeutas que conduz o grupo] ou por uma cadeira vazia.”

Nesta fase de ação dramática podem ser usadas muitas técnicas para ajudar o protagonista e explorar o seu conflito, como a inversão de papéis, em que “o protagonista se coloca no lugar do outro com quem interage num conflito” ou a técnica do espelho, em que “é substituído [no seu papel] por outros elementos de grupo e pode ver-se de fora, o permite a auto-observação”.

Na última fase, da sessão, a partilha, as pessoas voltam ao contexto de grupo. “O protagonista deixa de ser o centro e cada pessoa é convidada a partilhar qual ressonância que a sessão teve em si. A premissa é ‘em que é que isto me tocou?’” Depois das partilhas, o psicodramatista diz também umas palavras de resumo e fecha a sessão.

Encenar uma situação da vida e experimentá-la é muito diferente de apenas falar sobre ela.

Por um lado, a pessoa consegue compreender melhor os seus papéis, ou seja, por exemplo, o que significa para ela ser “mãe”, filha” ou “colega de trabalho”. “Os papéis são aprendidos e internalizados ao longo da vida e moldam a forma como uma pessoa interage com o mundo”, explica a psicoterapeuta. O facto de representar esse papel faz com que com se tenha uma noção mais clara sobre ele e, eventualmente, de o rever, se for necessário.

Por outro lado, o psicodrama dá ao participante a oportunidade de representar situações futuras, experimentando várias formas de atuar ou reagir num ambiente seguro, em que isso não tem consequências, e onde poderá voltar atrás e repetir, como se estivesse a fazer um ensaio da própria vida.

Funcionando em grupo, os comentários dos outros elementos do grupo – e não apenas do terapeuta – enriquecem o olhar da pessoa sobre a sua vida e sobre os seus problemas e permitem-lhe sentir-se acompanhada nos seus desafios que são partilhados por muitos dos outros elementos do grupo.

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É uma forma de psicoterapia que, através da dramatização e representação de papéis, trabalha muito a espontaneidade, a criatividade e a empatia.

“Permite aos seus elementos experimentarem, por um lado, uma realidade na primeira pessoa e, por outro, como se estivesse a acontecer no momento, ou seja, não é uma realidade diferida como acontece noutros modelos, em que a pessoa conta como foi.”

Por outro lado, é muito útil para pessoas com dificuldade em exprimir emoções ou com dificuldades relacionais, porque treina ambas.

É uma terapia individual feita em grupo. Porque todas as pessoas têm oportunidade de trabalhar os seus problemas, mas cada pessoa também tem oportunidade de ajudar os outros. “Cada pessoa é considerada um agente terapêutico e cada experiência conta para o bem-comum”, diz Liliana Silva Ribeiro.

O psicodrama tem as mesmas indicações e objetivos que as outras psicoterapias, nomeadamente, diminuir o sofrimento psicológico, melhorar a saúde mental e tratar algumas perturbações.

Liliana Silva Ribeiro explica que a participação num grupo só acontece depois de a pessoa ter algumas sessões individuais com o terapeuta, em que é avaliada essa adequação. “Não é uma terapia universal, há pessoas que pelas suas características pessoais podem não se identificar ou sentir à vontade com o modelo.”



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