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um artífice da palavra, cara a cara com a violência da vergonha – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Jun 10, 2024


Foi o primeiro vencedor lusófono do National Book Award, um dos mais importantes prémios literários dos Estados Unidos, com a tradução The words that remain. A palavra que resta, do brasileiro Stênio Gardel, é coisa contundente, capaz de ir ao osso e ao músculo ao mesmo tempo. Quem o abre mergulha lá dentro.

O livro foi publicado no Brasil em 2021, contando a história de Raimundo, homem que chega aos 70 analfabeto. Nessa altura, lança-se a aprender a ler, e isto para conseguir descortinar o que diz a carta que lhe escrevera Cícero, seu amante da juventude, de quem fora separado abruptamente e cuja falta ficara a sentir a vida inteira. Ora, 52 anos de saudade são 52 anos de angústia, e aqui a angústia aparece em múltiplos sentidos: é o não saber o que aconteceu a Cícero, é o não saber o que diz a carta, é o ter encontrado o amor e ter ficado sem ele, é essa circunstância sem direito a despedida, é o ter vivido o que viveu.

Na adolescência, o amor brilhava entre Raimundo e Cícero. Olharam um para o outro e a magia aconteceu como costuma acontecer. A partir daí, não se largaram. De pouco interessava ali “o suposto”, a incompreensão alheia e, por vezes, a própria incompreensão até. A paixão era um caminho e resolveram caminhá-lo. E houve paixão e amor no mesmo movimento, a descoberta do corpo do outro, a certeza de um abraço. Tudo parecia inteiro, não fosse o mundo à volta. Um dia, o pai de Cícero encontrou-os na cama. Daí veio porrada, e note-se a secura do registo, logo à cabeça do romance:

Dois anos durou.

– Que porra é essa?

O pai de Cícero pegou o filho de quatro, fechou os cinco dedos da mão direita e o derrubou no chão com um soco.
Seu Nonato, ele é teu filho, a gente é amigo, cresci indo na sua casa e o Cícero vindo na minha, de um tempo pra cá a gente começou a se gostar, a gente não está fazendo mal, não, seu Nonato, precisava bater desse jeito nele não, faça mais isso não, ele é teu filho, levanta, Cícero, se levanta.
Raimundo acabou não dizendo nada, enquanto Cícero limpava o sangue do lábio com o dorso da mão.” (p. 17)

Logo a seguir, passa-se o mesmo com Raimundo. São forçados a acabar e, em circunstâncias que não importa descortinar aqui, nunca mais se vêem, e Raimundo acaba por deixar tudo para trás – a casa, a terra, a família. As décadas seguintes têm o peso da ausência, e por isso cada episódio retratado tem a carga de ser um segundo plano num contexto em que o primeiro foi roubado.

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Título: “A palavra que resta”
Autor: Stênio Gardel
Editora: D. Quixote
Páginas: 176

De forma magistral, Gardel conta esta história, pegando na violência, na vergonha, e na violência com que a vergonha se abate sobre alguém. Vergonha, convém dizer, que não vinha dos amantes. Eles viviam do amor: “Um de frente para o outro. O rio correndo por eles. O mundo, lá, a rodar em torno deles. Raimundo girou o corpo e se encaixou no peito de Cícero, que o amarrou com os braços de pouca carne.” (p. 30). Com força contundente, o autor brasileiro explora a vida de alguém que foi assolapado pela perda, e do peso que esta ficou a fazer-lhe a vida inteira. O primeiro amor foi mais do que primeiro amor e a primeira dor também. Em vez disso, houve um trauma associado à perda da inocência, da juventude, da família. De costas voltadas, a Raimundo restou a cogitação, e a lembrança, e ao longo de décadas nunca deixou de lado a obsessão com o que o fizera tão inteiro. É que, depois do derradeiro encontro, que nem se sabia ser o último, Cícero deixou uma carta a Raimundo – um golpe trágico num analfabeto. A curiosidade alia-se ao desespero, e os dois alimentam um coração incendiado a gasolina. Durante décadas, Raimundo tem aquilo na cabeça, até que, já velho, toma a decisão de não deixar as palavras no vazio, e resolve aprender a ler.

Tudo isto já seria suficientemente amplo, mas Gardel enriquece a narrativa com elementos vários. Temos a infância pobre, o confronto com a natureza, a família sem acesso a educação formal ou à leitura, e a aparente simplicidade do sertão daquela altura. Findo o romance, ainda temos a vida pós-sertão, que é outra coisa, tanta coisa. A escrita é belíssima, meio oral, meio poética, sempre sublime. O leitor parece ouvir e ler ao mesmo tempo. Com uma estética irrepreensível, também a mundividência do romance impressiona. É que cada cena tem muita vida dentro: uma conversa só já vem apetrechada dos conflitos familiares, uma memória vem com ocultações, e os segredos dão forma às decisões, à vida, às incompreensões.

Enquanto lê, o leitor põe-se lado-a-lado com Raimundo. É fácil cogitar que, malgrado a grandeza do amor descrito, bastava que o tempo tivesse corrido sem interferências para que pudessem ter terminado tudo sem que um precisasse de se lembrar do outro a vida inteira – cogitando se Cícero fazia o mesmo. A carta que Raimundo guarda tem especial força porque nunca ter sido lida. Assim, não só tem de pensar no que poderia ter sido a vida se tivessem fugido os dois do sertão como ainda pensa no que lá poderá dizer, sendo que, à partida, o conteúdo pode pender para qualquer lado. A dúvida parece gás a sibilar a vida inteira. É que, sobrando a cogitação de tudo (porque é que Cícero não compareceu ao encontro por si marcado, como teria sido se tivessem conseguido fugir juntos, que vida teriam tido se não tivessem sido apanhados), a carta funciona como coisa palpável – e é para lá de incorpórea por não poder ser lida. Claro que é fácil imaginar-se que a carta poderia ter passado para outras mãos, mãos de alguém que pudesse lê-las. Mas, lendo o romance, entende-se que Raimundo não o faça. A carta é mais do que meras palavras, carrega em si o trauma, a vergonha, a violência, o medo, a porrada que levou do pai. Dá-la a alguém – à irmã, por exemplo, que se ofereceu para a ler por si – seria abrir a porta de um quarto e de um coração em simultâneo.

Stênio Gardel escreveu um romance magistral. O seu domínio do português não é coisa pouca. Criando um fluxo de oralidade (tanto que, às vezes, os próprios diálogos parecem pertencer às cogitações), permite uma leitura escorreita, viciante, viciada. Até a forma como pontua faz com que o leitor se foque tanto no que a personagem pensa como no que vive, tanto no dito quanto no não-dito. No final, parece que tudo é ausência no romance, e é impossível não sentir a relação empática que se dá com a coisa que não só é mal concluída como é rasgada ao meio.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia



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