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A Conspiração de Nova Iorque matou dezenas de escravos, espanhóis e católicos. Era ficção



DOIS / Wikipédia

Revolta de escravos de 1741: queimados na fogueira

Na primavera de 1741, uma onda de paranóia varreu Nova Iorque que acabaria por custar a vida a dezenas de pessoas escravizadas, brancos pobres, espanhóis e católicos.

A tragédia que ficou conhecida como a Conspiração de 1741 foi um conspiração fantasma — uma ficção mortal nascida do medo, do preconceito e de tensões políticas que apresenta semelhanças impressionantes com os julgamentos das bruxas de Salem do século anterior.

Na altura, Nova Iorque foi abalada por uma série de incêndios que deflagraram no sul de Manhattan, ameaçando o próprio Forte George, uma das cinco fortificações defensivas da cidade.

Como era habitual nestes casos, cedo começaram a circular rumores de uma conspiração, hipotética e improvávelna qual estariam supostamente envolvidos os numerosos escravos negros, espanhóis e outros católicosconta o LBV.

A tragédia desenrolou-se num cenário de conflito internacional e ansiedades locais. A Grã-Bretanha, que então controlava Nova Iorque como uma das suas Treze Colónias, estava em guerra com Espanha desde 1739, na que ficou conhecida como a Guerra da Orelha de Jenkins.

O conflito ganhou este nome peculiar depois de um guarda costeiro espanhol alegadamente ter cortado a orelha de um contrabandista inglês chamado Jenkins, a quem disse para transmitir um aviso ao seu rei.

A guerra foi, na verdade, fabricada pela oposição Tory como pretexto para forçar o primeiro-ministro Roberto Walpole a abrir hostilidades, numa altura em que os interesses britânicos estavam centrados em quebrar o monopólio comercial de Espanha com as Índias e renovar o lucrativo Assento Preto — o contrato exclusivo para o tráfico de escravos nas Américas.

Nova Iorque tinha na altura condições voláteis. Com uma população de dez mil habitantes, Manhattan tinha a segunda maior população escravizada das Treze Colónias, apenas atrás de Charleston, na Carolina do Sul. Um em cada cinco residentes de Nova Iorque era escravizado, o que criou um barril de pólvora de tensões raciais e económicas.

Na altura, surgiam regularmente, mais ou menos de dois em dois anos, acusações de conspirações de escravos — embora a maioria se revelasse infundada. A exceção notável foi a revolta de 1712em que 23 escravos de origem ganesa, liderados por um homem chamado Kofi, mataram 9 brancos, antes de serem capturados e executados.

A crescente influência da população escravizada na economia de Nova Iorque criava atritos adicionais. Alguns proprietários de escravos ensinavam os seus ofícios aos trabalhadores escravizados, prejudicando concorrentes que empregavam mão de obra livre.

Entretanto, os escravos libertados aceitavam quaisquer salários que lhes fossem oferecidos, baixando os rendimentos médios e gerando ressentimento entre os brancos pobres.

Ó inverno brutal de 1740 exacerbou estas tensõesdestruindo colheitas e criando graves carências de alimentos e lenha que atingiram mais duramente os residentes mais pobres — tanto livres como escravizados.

Havia ainda outros fatores em jogo. A retirada das tropas britânicas de Nova Iorque para a invasão planeada de Cuba deixou os residentes a sentirem-se vulneráveis e na defensiva. Por outro lado, o Lei de Teste 1691 exigia que os funcionários públicos rejeitassem a autoridade papal e, em 1700, os padres católicos foram totalmente proibidos.

Esta conjugação de fatores criou um clima de suspeição não apenas em relação às pessoas escravizadas, que estavam proibidas de se reunir em grupos superiores a três, mas também em relação a católicos, espanhóis e até protestantes não-conformistas, incluindo puritanos, baptistas e quakers.

A faísca que ateou a tragédia surgiu em Fevereiro de 1741, quando John Hughsonum sapateiro analfabeto que explorava uma taberna, foi detido pelo escrivão municipal e juiz do Supremo Tribunal Daniel Horsmanden.

O estabelecimento de Hughson atendia uma clientela diversa de soldados, libertos, brancos pobres e pessoas escravizadas, e o taberneiro foi acusado de receptar bens roubados.

A investigação centrou-se em três homens escravizados, Cuffee, Caesar e Prince, que alegadamente formaram o “Clube de Genebra“, assim chamado devido ao licor holandês roubado que teriam fornecido a Hughson.

A testemunha-chave foi Maria Burtona criada de dezasseis anos de Hughson, que se tornaria o catalisador de uma cascata de acusações que fez lembrar os julgamentos de Salem.

A 18 de março, enquanto Horsmanden pressionava Burton a dar-lhe informações, deflagrava um incêndio na casa do governador George Clarke, adjacente ao Forte George, na baixa de Manhattan. Embora rapidamente contido, foi seguido por uma série de incêndios nas semanas seguintesque pareciam cada vez mais suspeitos.

Na realidade, Nova Iorque era uma cidade de casas de madeiracheia de lareiras, o que tornava os incêndios uma ocorrência comum. Mas na atmosfera carregada de 1741, as explicações racionais deram lugar à histeria.

A 6 de Abril, quando incêndios deflagraram simultaneamente em quatro locaisalguém avistou um homem negro a fugir; era Cuffee, o alegado ladrão. Depressa se espalhou o rumor de que estava em curso uma rebelião de escravos e, em poucos dias, 100 pessoas escravizadas foram aprisionadas.

Sob pressão implacável, Mary Burton finalmente cedeualegando que existia um conspiração que envolvia escravos negros e brancos pobres que se reuniam na taberna de Hughson.

A jovem criada identificou então os alegados membros do Clube de Genebra, e implicou na conspiração Margaret”Peggy” Sorubierouma prostituta irlandesa e namorada de Caesar.

Apesar da ausência completa de provasas autoridades ofereceram recompensas na altura substanciais por quaisquer testemunhos: 100 libras para brancos45 para negros livres ou índios, e 20 libras mais a liberdade para informadores escravizados.

O resultado inevitável foi uma avalanche de acusações. Caesar e Prince foram enforcados a 11 de Maio após condenação por roubo.

No dia seguinte, novos incêndios destruíram 7 celeiroslevando à queima de dois homens negros na fogueira, um castigo autorizado por uma lei de 1713. Com as chamas aos seus pés, confessaram e denunciaram 50 outrosque foram imediatamente aprisionados.

Hughson e Margaret foram condenados a 6 de maio e, perante a execução, Margaret começou a acusar escravos detidosque por sua vez acusaram outros numa cadeia de reações absurda.

A histeria atingiu proporções assombrosas: 152s negros e 20 brancos foram detidos. No seu auge, quase metade dos escravos masculinos da cidade com mais de dezasseis anos tinham sido aprisionados.

Mesmo quando os proprietários testemunharam que escravos acusados como Cuffee e o seu amigo Quack estavam em casa quando os incêndios começaramnão fez qualquer diferença — ambos foram enforcados a 30 de Maio. Hughson e Margaret tiveram o mesmo destino a 12 de Junho.

No Verão, com o espaço nas prisões esgotadoos procedimentos foram temporariamente suspensos. Mas a perseguição expandiu-sepassando a incluir espanhóis e católicos.

Cinco marinheiros espanhóis negros livres foram executados, e João Uryum professor e preceptor, foi acusado de ser um padre católico disfarçado e espião espanhol, baseando-se largamente no seu conhecimento de latim.

Apesar de ser um vigário anglicano não-juramentado, e de ter testemunhos que apoiavam a sua inocênciaUry foi condenado com base em novas acusações de Mary Burton e Sarah Hughson, a esposa pressionada do taberneiro. Foi enforcado no final de agosto, seguido pela própria Sarah.

Mary Burton recebeu as 100 libras prometidas e a liberdade do seu contrato de servidão antes de desaparecer sem deixar rasto. Foi a única beneficiária de todo o caso.

A loucura terminou abruptamente quando as acusações começaram a tocar cidadãos proeminentesincluindo familiares de membros do tribunal e até parentes do próprio Horsmanden. Confrontadas com um potencial caos social e político, as autoridades subitamente redescobriram a razão e arquivaram o caso.

Os que ainda estavam aprisionados foram libertados, mas o indulto chegou tarde demais para as dezassete vítimas negras e quatro brancas enforcadas, as treze pessoas negras queimadas na fogueira, e as setenta e sete deportadas para a Terra Nova e as Índias Ocidentais.



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