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Acha que o mundo está cada vez pior? Calma, pode haver boas notícias…



SXC

Vivemos numa sociedade em declínio? Várias investigações dão-nos algumas razões para sermos otimistas.

Há muitas razões para nos sentirmos pessimistas em relação aos outros.

Esta perceção é sustentada pela investigação: um estudo publicado na Nature em 2023 concluiu que pessoas em mais de 60 países acreditam que a decência básica está a cair a pique.

Uma sondagem de 2025 a 9.600 americanos revelou que 46% acreditavam que a falta de educação está, no geral, a aumentar, enquanto apenas 9% consideravam que estava a diminuir em comparação com os níveis pré-pandemia.

Massa perceção das pessoas pode ser imprecisa. Numa nova investigação, partilhada por Paulo Hanelda Universidade de Essex (Reino Unido), num artigo no A conversasão analisadas quão exatas são as perceções das pessoas sobre os outros, as implicações de perceções incorretas e o que acontece quando essas perceções erradas são corrigidas.

E é claro que aqui existem algumas perceções erradas. Se olharmos para os valores das pessoas, esses ideais abstratos que orientam o nosso comportamento, há razões para sermos positivos em relação à sociedade.

em outro estudo de 2022 com 32.000 pessoas de 49 grupos culturais, os valores da lealdade, honestidade e prestabilidade surgiram em primeiro lugarenquanto o poder e a riqueza ficaram nos últimos lugares. Os resultados oferecem pouco apoio às alegações de declínio moral.

Uma ferramenta interativa, desenvolvida pelo cientista social Máximo Rudnev com base em dados do Inquérito Social Europeu, mostra que o padrão se manteve consistente entre 2002 e 2023 em mais de 30 países europeus.

Outros estudos mostram que os valores das pessoas são, em termos gerais, semelhantes em mais de 60 países, níveis de educação, denominações religiosas e géneros (há exceções, claro). Ou seja, existe uma sobreposição substancial entre as respostas de ambos os grupos.

Até os valores de 2.500 Democratas ou Republicanos nos EUA em 2021-23, ou de 1.500 eleitores do Leave e do Remain no referendo do Brexit em 2016-17, são notavelmente semelhantes. Isto sugere uma narrativa alternativa às perceções de países divididos e polarizados.

Uma limitação destes resultados é o facto de se basearem em auto-relatos das pessoas. Isto significa que os resultados podem ser imprecisos, por exemplo porque as pessoas quiseram apresentar-se de forma positiva. Mas e quanto ao comportamento real das pessoas?

Bons cidadãos. Há esperança!

Vários estudos sugerem que a maioria das pessoas se comporta efetivamente de forma moral.

Por exemplo, quando investigadores analisaram conflitos públicos reais registados por câmaras de vigilância, descobriram que, em nove em cada dez conflitos, um transeunte interveio (nos casos em que havia transeuntes presentes).

Estas conclusões, de 2020, foram semelhantes nos Países Baixos, na África do Sul e no Reino Unido.

As pessoas intervêm em ataques com faca ou ataques terroristas, mesmo quando se colocam em perigo. Embora estes casos sejam raros, demonstram que muitas pessoas estão dispostas a ajudar mesmo em circunstâncias extremas.

Em situações menos dramáticas, também podemos observar que as pessoas têm consideração pelos outros.

Por exemplo, um estudo de 2019 concluiu que, em 38 dos 40 países analisados, carteiras perdidas tinham, em média, maior probabilidade de ser devolvidas se contivessem algum dinheiro do que se não contivessem dinheiro, e uma probabilidade ainda maior de serem devolvidas quando continham uma quantia razoável de dinheiro.

Isto deve-se provavelmente ao facto de quem as encontrava reconhecer que a perda seria mais prejudicial para o dono da carteira.

em outro experiênciaem 2023, 200 pessoas de sete países receberam 10.000 dólares americanos, com praticamente nenhuma condição associada. Os participantes gastaram mais de 4.700 dólares com outras pessoas e doaram 1.700 dólares a instituições de caridade.

Mas e quanto às mudanças ao longo do tempo? Pode ser que as pessoas, há 50 ou 100 anos, se comportassem de forma mais moral. Não há muitos estudos que acompanhem sistematicamente mudanças de comportamento ao longo do tempo, mas um estudofeito entre 1956 e 2017, concluiu que os americanos se tornaram ligeiramente mais cooperantes entre as décadas de 1950 e 2010 quando interagiam com estranhos.

Porque aumentam as perceções erradas?

Porque é que tantas pessoas continuam a acreditar que a sociedade está em declínio moral?

Desde logo, os meios de comunicação social tendem a focar-se em acontecimentos negativos.

Como notícias negativas também têm maior probabilidade de ser partilhadas nas redes sociais. Por exemplo, inúmeros estudos observaram que, quando ocorrem desastres (furacões, sismos), muitos órgãos de comunicação relatam pânico e crueldade, apesar de as pessoas normalmente cooperarem e se apoiarem mutuamente.

Além disso, as pessoas com opiniões políticas mais extremas — tanto à esquerda como à direita — têm maior probabilidade de publicar conteúdos online. Por outras palavras, aquilo que vemos nas redes sociais não é, de forma alguma, representativo da população.

Claro que nada disto nega que uma minoria de pessoas possa causar danos graves, ou que alguns aspetos da vida pública possam estar a piorar.

Paul Hanel escreve que pessoas que acreditam erradamente que os outros se preocupam mais com valores egoístas e menos com valores compassivos têm, em média, menor probabilidade de fazer voluntariado ou de votar. Isto não é surpreendente: porquê investir o teu tempo em pessoas que achas que nunca retribuiriam o favor?

Numerosas experiências demonstraram que mostrar às pessoas que os outros partilham, em média, valores e crenças semelhantes aos seus pode torná-las mais confiantes e mais esperançosas em relação ao futuro.

Falar com outras pessoas, sejam amigos, conhecidos ocasionais ou estranhos, pode levar-nos a perceber que os outros são, na sua maioria, amigáveis, e também pode fazer-nos sentir melhor.

Fazer voluntariado, integrar grupos locais ou participar em eventos de bairro pode ser uma boa ideia: ajudar os outros faz-nos sentir melhor. Por fim, ler notícias positivas ou focar-se na bondade dos outros também pode melhorar a nossa perspetiva.

As provas sugerem que o declínio moral não está a acontecer, mesmo que existam exemplos de alguns maus comportamentos em ascensão. Se todos deixássemos de falar com outras pessoas por assumirmos que nos querem fazer mal, deixássemos de ir mais além pelos outros, e assim por diante, haveria o risco de nos tornarmos mais egocêntricos e de o declínio acabar por acontecer. Felizmente, enquanto sociedade, podemos influenciar o nosso próprio destino.



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