
Rosa-dos-Ventos no terreiro de acesso ao Padrão dos Descobrimentos, calçada portuguesa
Em 2021, a Calçada Portuguesa foi inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. Mas, seja por questões de segurança, custo ou pelo simples facto da quase extinção profissional, este tipo de pavimento, enquanto solução padrão e replicada em inúmeros arruamentos, tem os dias contados.
No próximo dia 22 de julho celebraremos em Portugal, pela primeira vez, o Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa. Uma celebração que dará corpo à resolução aprovada por unanimidade, do passado dia 9 de janeiro, pela Assembleia da República: a “Valorização dos Calceteiros e da Calçada Portuguesa”.
Para além da decisão desta celebração, por si só simbólica, a Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, que redigiu o texto final, recomenda ainda ao Governo que adote uma série de medidas “com o objetivo de proteger, dignificar e assegurar a continuidade deste património cultural imaterial único nenhum mundo”.
Uma decisão louvável, que reflete o reconhecimento por parte do Estado Central, da arte de “saber-fazer” da calçada portuguesa.
Esta decisão, apesar de tardia, não surge isolada. Vem na sequência do caminho iniciado já em 2021, quando a Calçada Portuguesa foi inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
No passado março de 2025, foi também submetida à UNESCO a candidatura à integração da Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, da “Arte e Saber-Fazer da Calçada Portuguesa“.
Um caminho longo, pois, desbravado pela Associação da Calçada Portuguesa, que contou com o apoio de 50 calceteiros e de 8 municípios: Braga, Estremoz, Faro, Funchal, Lisboa, Ponta Delgada, Porto de Mós e Setúbal.
Em bom tempo, o Governo Português se associou à iniciativa, criando um grupo de trabalho que terá por objetivo a proteção e sustentabilidade da profissão e a salvaguarda deste tão importante e estimado património nacional.
Ó envelhecimento dos profissionais, a dureza do trabalho e a baixa remuneração, são fatores que colocam a profissão e a arte em risco de desaparecimento.
Mas para além destas, outras questões têm vindo a ser levantadas. Dias conturbados, em que – em não raras vezes – a mobilização pública caminhou no sentido de erradicar este tipo de solução para as nossas cidades.
Em Lisboa, o calcário polido tem sido propício a quedassendo considerado por muitos um perigo público e um atentado à segurança. Foram mesmo aprovadas pelo município uma série de medidas que previam a retirada e substituição da calçada portuguesa em muitas das artérias da capital.
Porto e Olhão tomaram também medidas semelhantesque culminaram na remoção de algumas das suas calçadas. De tal forma que em 2015, foi mesmo declarado que, por razões de segurança e de custos de manutençãou estaríamos entrando “no princípio do fim” da calçada portuguesa.
E concordaremos que, com um preço médio que pode rondar os 100€ / m2, é bastante conveniente para os municípios que outras soluções de pavimentação se sobreponham.
Parece-me, pois, claro que, seja por questões de segurança, custo ou pelo simples facto da quase extinção profissionaleste tipo de pavimento, enquanto solução padrão e replicada em inúmeros arruamentos, tem os dias contados. Não tenho dúvida.
No entanto, o trabalho que a Associação da Calçada Portuguesa tem vindo a desenvolver, vai permitir manter este ofício vivo e garantir a conservação dos principais e emblemáticos trabalhos em calçada portuguesa.
Segundo os registos, a primeira calçada a preto e branco foi executada em Lisboa, em 1842. O trabalho foi realizado por presidiáriostendo sido tão bem acolhido que rapidamente foi replicado noutros pontos da cidade e noutras cidades portuguesas.
Uma das praças mais emblemáticas, a Praça do Rossiocomeçou a ser pavimentada em agosto de 1848, tendo sido concluída apenas no final de 1849. São mais de 8.700 m² de calçada portuguesa.
Também a Praça do Impériocom uma área total de 3.300 m² e famosa pela sua calçada, foi em tempos notíciapelo consenso gerado em torno da decisão de substituir os famosos brasões florais das capitais de distrito, das ilhas e ex-colónias portuguesas, por brasões realizados em calçada portuguesa.
Uma questão ideológica – para muitos – que foi ultrapassada com uma solução técnica, com forte pendor identitário de expressão nacional.
De facto, a arte de bem-fazer gera notícia. Uma técnica de produção artística, com quase 200 anos, que desde a sua primeira criação, levou críticos e cronistas a escrever sobre o assunto. Foi assim, nos jornais diários de 1842, e é assim hoje, aqui no ZAP!
