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Maior tribo não contactada do mundo filmada em encontro amigável inédito. “Fizeram-nos perguntas”



Paul Rosolie/Lex Fridman Podcast/Youtube

Imagens inéditas de membros da tribo Mashco Piro, na Amazónia peruana

Terá sido a primeira vez que os Mashco Piro foram filmados a esta distância, a comunicar com o exterior e com elevada qualidade de imagem. “Duas tribos a encararem-se, com 1000 anos de civilização entre eles”.

Novas imagens inéditas, captadas em alta definição, mostram um raríssimo encontro não violento com o povo Masco Piroconsiderado a maior tribo não contactada do mundo, que vive em isolamento voluntário na região peruana da floresta amazónica.

No conjunto de vídeos impressionantes vê-se dezenas de membros da tribo a sair da floresta em direção a uma praia onde o naturalista Paulo Rosolie (que divulgou em primeira mão as imagens no Lex Fridman Podcast este mês e depois no Instagram) se encontrava com indígenas locais e colegas de trabalho da Junglekeepers, organização sem fins lucrativos dedicada a proteger a biodiversidade da floresta tropical da Amazónia.

Armados com arcos e flechas e lanças enormes, o grupo (que no total, estima-se, será composto por 750 membros), é visto a avançar cautelosamente em formação e a avaliar o ambiente. Pouco a pouco, a postura defensiva suaviza quando notam que o grupo de Rosolie vem em paz, com bananas para lhes oferecer.

Os Mashco Piro habitualmente evitam ao máximo qualquer contacto sustentado com a sociedade envolvente e mantêm um modo de vida de caça, pesca e recolha.

“O contacto é perigoso e tentamos evitá-lo. Estas pessoas vivem intencionalmente isoladas nas partes mais profundas da selva. Autodenominam-se Nomole [“irmãos”]. São vulgarmente chamadas de Mashco Piro ou tribos não contactadas”, explica Rosolie na publicação.

“Quando estava numa comunidade remota com os outros diretores da Junglekeepers, eles saíram da selva e fizeram-nos perguntas“, adiantou o explorador, que diz investigar e viver na floresta amazónica de forma intermitente há cerca de duas décadas.

“Eles estão a chegar”

Este encontro com a tribo, o mais bem documentado de sempre, teve lugar em outubro. Foram os indígenas locais com quem Rosolie e outros membros da ONG estão a colaborar que lhes pediram ajuda para lidar com a tribo não contactada, altamente violentoque começou a aparecer numa praia.

“Pegámos num barco. Chamámos o nosso guarda florestal mais experiente, Ignacio, que já foi atingido na cabeça por uma flecham e 2019, e ainda tem a cicatriz (e mal sobreviveu). Levámos alguns pacotes de arroz, algumas latas de atum, os nossos sacos impermeáveis ​​​​e as nossas bancas. Embarcámos por volta das 18h e começámos a navegar rio acima durante a noite, pela noite dentro”. Rosolie descreve uma viagem atribulada, com um frio gélido e crocodilos, em escuridão cerrada.

“Chegámos lá já era de manhã e recebemos um abraço de um tipo chamado Bacho, que conhecemos, e eles disseram: ‘Entrem, entrem, entrem. A tribo apareceu ontem, vimos alguns deles na praia, mas agora já se foram embora’. Depois dormimos”, conta. E quando estavam prontos para desistir do encontro com a tribo, a esperança renovou-se.

“Choveu o dia todo. Nessa noite, saímos para os procurar e houve um momento louco em que estávamos na praia e as pegadas deles estavam lá, e o antropólogo indígena local também estava lá. Todos estavam à espera porque, a qualquer momento, uma flecha podia atravessar um pescoço”, confessa: “havia pessoas a segurar espingardas”.

O antropólogo terá começado a falar para a tribo, à medida que se começavam a ver as pontas dos pés escondidos atrás de plantação.

“Nomole, estamos aqui. Não queremos fazer-vos mal. Venham” — Rosolie recordava as palavras do cientista. Nomoles (“irmãos”) é como os membros da tribo parecem chamar-se entre si. É uma das poucas palavras conhecidas da sua língua.

“Assim que chegámos à praia, eles correram. Estavam lá a ouvir-nos, mas nada aconteceu. Regressámos à aldeia e fomos dormir”. Terá sido Ignacio, o “ranger mais experiente” e que teve dois encontros de quase-morte com os Mashco Piro, quem convenceu Rosolie e a equipa a ficar.

“Ele veio ter comigo e disse: ‘Serias um idiota se te fosses embora agora. Eles estão a chegar‘, e convenceu-nos a ficar. Retiramos as tendas do barco e tudo estava em silêncio. Abri o meu portátil e estava a trabalhar, a escrever. E então, aconteceu“, conta o naturalista.

Finalmente: o encontro histórico

“De repente, começámos a ouvir pessoas a gritar, ‘Mashco, Mashco’. As mulheres pegavam nas crianças ao colo e corriam para dentro das cabanas, e os cães e as galinhas, loucos. Medo, medo, medo. Porque, como todos sabem, qualquer encontro, mesmo que mínimo, com estas tribos, foi violento, extremamente violento“, ao lado Rosolie para Fridman.

Foram os Mashco Piro que iniciaram o contacto, mas a medo. Eram “duas tribos a encararem-se, com 1000 anos de civilização entre eles”, compara o conservacionista.


“Tive medo”, recorda Paul, “porque éramos 26 pessoas e havia 50 membros da tribo que consegues ver, e sabíamos que eles estavam a circundar-nos“.

“Nestes momentos, pensas: ‘estarei a entrar numa porta sem saída? Esta é uma situação irreversível?’ Porque é uma situação em que eles estão a vir na tua direção. Tu pensas: ‘ eles vão atacar?’”.

Não foram vistas mulheres, apenas homens dos 12 anos de idade até aos 40. Todos tinham todos cordas à cintura, a atar os pénis, direcionados para cima. Uns estavam a usar corda feita por eles, castanha, enquanto outros usavam corda que pilharam de outras comunidades, claramente feita de nylon moderno. A tribo não tem barcos nem ferramentas de pedra. Esta terá sido a primeira vez que foram filmados com esta distância e qualidade de imagem detalhada, que as suas vozes foram gravadas, que uma interação foi documentada.

Paul Rosolie/Lex Fridman Podcast/Youtube

Imagens inéditas de membros da tribo Mashco Piro, na Amazónia peruana

Aproximaram-se cautelosamente dos barcos com bananas. Quando os alcançaram, retiraram-nas rapidamente como se estivessem com fome. Foi nessa altura que a equipa da Junglekeepers tentou fazer perguntas à tribo.


E os membros da tribo, por sua vez, tentaram comunicar com palmas, para pedir mais mantimentos e, segundo Rosolie, perguntaram “como é que se distinguem os bons dos maus?” e “quem é que são os que andam a cortar as árvores?”.

“As árvores maiores parecem ter um grande significado para eles. Parece ser ofensivo cortar uma dessas árvores a um nível espiritual e religioso”, revela o naturalista.

“Depois de lhes darmos vários carregamentos de bananas, as coisas acalmaram. A certo ponto, começamos a acenar, e eles a acenar de volta; a dançar um bocado, e eles dançavam também”, conta. Pediram calças e t-shirts.


A certa altura, perguntaram diretamente por Rosolie, alegadamente surpreendidos pela sua altura e fisionomia:


Mas o medo nunca se desvanece entre os locais. Até porque, no dia seguinte ao encontro que pareceu amigável, para surpresa de todos, os Mahco Piro atacaram violentamente. “Acho que ficaram assustados, possivelmente, por barcos a motor”, contou Rosolie.

Violência como resposta ao contacto

“Estas tribos sobreviveram por causa da violência. Parecem ter adotado a violência como primeira resposta ao contacto”acredita Paul Rosolie, recordando os missionários coloniais do século XVI, seguidos dos barões da borracha que colonizaram a Amazónia até ao séc. XX: “períodos de extração, dominação e crueldade”.

“E estas tribos, os seus avós, devem ter-lhes dito que, se o mundo exterior chegasse, deveriam disparar primeiro. Essa era a única coisa que os manteria vivos.”

“Durante a minha vida [na Amazónia]nos 20 anos que lá passei, o Ignacio foi baleado na cabeça. O meu amigo Victor sobreviveu a um confronto violento em que assassinaram alguém numa praia… dispararam sobre inúmeras pessoas. Até sobre pessoas que estavam a tentar ajudá-los. Pessoas que tentavam dar roupa e bananas”, conta o naturalista: “Chamam-lhe ‘porco-espinhá-los’quando encontram um corpo na praia com tantas flechas que, quando a pessoa cai, todas as flechas ficam espetadas.”

“E também o fazem por simples curiosidade… eles só querem olhar para ti. Não têm um sistema moral como nós temos ou entendemos. São verdadeiramente selvagens“, acredita.

Filmar o encontro “era a nossa missão”

“Eu e a minha equipa estamos a partilhar estas imagens cientes dos riscos envolvidos. Mas, ou mostramos estas imagens importantes e conseguimos ajuda para proteger estas pessoas, ou a floresta delas será destruída”, avisou o naturalista perante os seus seguidores no Instagram. Filmar o encontro “era a nossa missão”, diz.

“Trabalhamos com antropólogos e especialistas em ética para garantir que tudo é feito legalmente e de acordo com as normas, tanto para proteger as tribos que aqui veem, como a nós próprios.”

“Estas pessoas, para continuarem a viver, precisam de permanecer isoladas, querem permanecer isoladas“, explicou Rosolie no podcast: “esse é o seu único objetivo enquanto civilização.”

“O que fazemos é pegar em lenhadores e mineiros e transformá-los em guardas florestais, oferecendo-lhes melhores empregos”, adianta ainda.

O episódio surge num contexto de crescente pressão sobre a floresta na fronteira entre o Peru e o Brasil. Ameaças têm sido cada vez mais associadas a madeireiros e narcotraficantes, a juntar aos crescentes impactos das secas prolongadas, incêndios e alterações no regime dos rios que reduzem a disponibilidade de recursos e motivam deslocações, o que tem aumentado os avistamentos de tribos isoladas.

“Os povos indígenas e a Junglekeepers estão a trabalhar incansavelmente para proteger a floresta da qual estas pessoas dependem. É uma área de selva densa que está atualmente sob ataque de madeireiros, mineiros e narcotraficantes”, acrescentou Rosolie.

A política recomendada por especialistas em relação a tribos não contactadas é de “não contacto” e de reforço da proteção territorial. O objetivo é reduzir o número de invasões de espaço e manter uma zona-tampão que permita à própria tribo decidir, autonomamente, se e quando quer interagir com o exterior.


Tomás Guimarães, ZAP //



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