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O primeiro Homem na Terra, o primeiro carro na Ponte do Freixo, o objeto sem nome



ZAP // Américo Dias / Flickr; Cicero de Moraes / Wikipedia; NASA

Qual foi o primeiro Homem a nascer na Terra? E o primeiro carro a atravessar a Ponte do Freixo, no Porto? E haverá algum objeto no Universo que não tem nome? Um pequeno leitor do ZAP enviou-nos estas três questões — e não conseguimos deixar de tentar responder-lhe.

Ó Franciscode 7 anos, tem uma curiosidade do tamanho do Mundo. Enviou-nos três perguntas muito interessantes, a que não é fácil dar resposta. Mas fomos investigar.

A primeira das três questões é fascinante, e não tem uma resposta direta: qual foi o primeiro Homem a nascer na Terra?

A evolução humana foi um processo gradualcom pequenos passos, que durou milhões de anos. Não podemos dizer que num determinado dia, há milhões de anos, um casal de não-humanos deu à luz o primeiro humano.

Em vez disso, pequenas mudanças genéticas acumularam-se por inúmeras gerações, numa transição tão lenta que é impossível apontar onde uma espécie acaba e começa outra, tal como não se consegue saber o que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha — apesar de um estudo recente sugerir que terá sido o ovo.

Do ponto de vista científicoa nossa espécie atual, o Um homem sábioterá surgido há cerca de 300.000 anos em Áfricamas é muito difícil saber quando é que o H. sapiens se tornou uma espécie distinta.

Mas a nossa não é a primeira espécie humana; todas as espécies do género Homo são humanas. Assim, o “primeiro homem”, se fosse possível distingui-lo, teria sido um indivíduo da primeira espécie do género Homo.

Até há alguns anos, os cientistas consideravam que o Um homem práticoo primeiro hominídeo a usar ferramentas, teria sido a primeira espécie Homo. Segundo um estudo publicado este mês, nem sequer tinha “aspeto humano”.

Acontece porém que, num estudo publicado em 2015 na Ciênciaos cientistas descreveram o fóssil mais antigo atribuído ao género Homo: uma mandíbula encontrada em Ledi-Geraru, na Etiópia, com cerca 2,80 milhões de anos, a que foi dado o nome de LD 350-1.

Esta mandíbula é atribuída ao género Homomas sem espécie definida; é demasiado antiga e está demasiado fragmentada para que se possa classificar com segurança como H. útil ou H. rudolfensis.

Assim, não sendo possível saber exatamente quem foi o primeiro Homem a nascer, podemos dizer que LD 350-1 poderá ser o primeiro que se conhece.

Entretanto, se deixarmos o campo científico e passarmos a analisar a questão do ponto de vista religiosoa questão torna-se muito simples de responder: o primeiro Homem na Terra foi, obviamente, Adão — pelo menos, para as religiões abraâmicas, como o Judaísmo, Cristianismo e Islamismo.

O primeiro carro na ponte

Ao contrário da primeira, a segunda questão do Francisco terá, tecnicamente, uma resposta concreta: qual foi o primeiro carro a passar a ponte do Freixono Porto? Algum há-de ter sido.

Infelizmente, não conseguimos encontrar registos que nos permitam identificar que viatura teve o privilégio de fazer a travessia pela primeira vez; apenas podemos tentar adivinhar quem lá ia.

Com cerca de 1.500 metros e  oito vias de trânsito, esta ponte rodoviária sobre o Rio Douro é a mais a montante e a de cota mais baixa das seis pontes que ligam o Porto e Vila Nova de Gaia; é na verdade uma dupla ponte, com dois tabuleiros gémeos afastados cerca de 10 cm entre si.

A ponte foi projetada pelos engenheiros António Reis e Daniel de Sousae inaugurada em 1995, sete anos após o início da sua construção.

Inevitavelmente, num dado instante, um dos tabuleiros da ponte terá sido concluído; algum dos engenheiros ou técnicos responsáveis ​​terá então entrado no seu jipe ​​e feito a primeira travessia “técnica” da Ponte do Freixo. Apostaríamos que António Reis e Daniel Sousa terão querido chamar a si o privilégio — mas não sabemos a marca do jipe…

Se estivermos a falar da primeira “travessia oficial” da ponte, a mesma terá ocorrido na data da sua inauguração pela então Junta Autónoma das Estradas, no dia 16 de setembro de 1995.

Contactámos a Infraestruturas de Portugal, a quem pedimos informação sobre a inauguração da ponte e a respetiva primeira travessia, mas à hora desta edição ainda não obtivemos resposta.

Assim, resta-nos uma vez mais tentar adivinhar. Segundo os Arquivos da RTPa cerimónia de inauguração ocorreu poucas semanas antes das eleições legislativas desse ano, com a presença do então primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silvaque se fez acompanhar na ocasião pelo Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Joaquim Ferreira do Amaral.

Um destes governantes deverá ter cortado a fita, após o que, provavelmente, terão ambos seguido viagem na viatura que fez a primeira travessia da ponte após a sua inauguração. Mas aguardamos detalhes da IP para clarificar a questão…

O objeto sem nome

Finalmente, a terceira questão do Francisco tem uma resposta clara e objetiva: haverá algum objeto no Universo que não tem nome?

Sim, há imensos objetos no universo que não têm nome. Na verdade, milhões de biliões de triliões de objetos sem nome — ou, se quisermos ir mais longe, um número infinito deles.

Se falarmos apenas nos objetos que existem fora da Terra, há biliões e biliões de estrelas, planetas, asteroides, galáxias e outros corpos celestes. Muitos deles já são conhecidos, mas dar um nome único a cada um seria impossível.

Por isso, a maioria recebe apenas designações alfanuméricas baseadas em catálogos astronómicos, com aspetos estranhos como HD 189733bo planeta que cheira a ovos podresou AT2025ulzuma possível “superkilonova” que terá explodido não uma, mas duas vezes.

Só uma pequena fração dos objetos celestes tem nomes próprios tradicionais, como as estrelas Sirius ou Betelgeuse, ou a galáxia de Andrómeda. Geralmente, apenas os objetos mais brilhantes, mais próximos ou historicamente mais significativos têm honras de ganhar um nome decente.

Alem disso, há imensos corpos celestiais que nem sequer foram catalogados. Com telescópios cada vez mais potentes, como o James Webbestamos constantemente a descobrir novos objetos, galáxias distantes, pequenos asteroides, estrelas ténues — que ficam à espera de catalogação.

Mas na verdade, a teoria atualmente aceite pelos cosmólogos sugere que o Universo é infinitopelo que haverá sempre um número infinito de objetos cósmicos ainda sem nome.

E se estivermos a falar só da Terrahaverá algum objeto sem nome? Bem, há incontáveis objetos terrestres que não têm um nome próprio.

Cada grão de areia numa praia, cada folha numa árvore, cada objeto que usamos no nosso dia-a-dia, normalmente não tem um nome próprio; tem um nome genérico, “um grão de areia” ou “uma caneta”, e até lhe podemos chamar Bic — mas (se formos uma pessoa normal) não chamamos Maria a uma caneta.

Podemos dizer que todos os objetos têm um nome genéricomesmo que não tenham nome próprio específico; só damos nomes próprios a objetos que têm relevância específica, seja geográfica, histórica, cultural ou pessoal. Todos os outros objetos existem anonimamentee, ao contrário das estrelas, sem a esperança de um dia ganhar direito ao seu nome.

E então, há algum objeto que não tenha sequer um nome genérico, que não esteja classificado em nenhuma categoria?

Provavelmente, há. Há-de estar por aí algures, mas ainda não o descobrirmos. No momento em que o encontremos, imediatamente o nosso cérebro vai classificá-lo numa categoria, e dar-lhe um nome genérico. Nem que seja… “coisa”.



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