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o surf territorial – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Set 9, 2023

“Objeto autónomo” (sic) da exposição homónima que esteve na garagem sul do Centro Cultural de Belém no primeiro semestre de 2020 e há pouco se transferiu — tardiamente — para o Núcleo Museológico do Mar da Figueira da Foz, onde ficará até maio de 2024, este pequeno livro surpreende e merece boa atenção porque nos dá a conhecer os esforços de Miguel Figueira, um arquiteto surfista de 54 anos, e do movimento SOS Cabedelo, que ele ajudou a criar, para tentar corrigir a má gestão de ordenamento da orla costeira no centro do país continental. “Reconhecemos a importância do esforço na proteção da chamada duna primária, — escreve, — mas esta designação levanta um grave equívoco: na verdade esta é a segunda duna, porque a primeira é a que está submersa. Longe da vista, esta primeira linha de proteção da nossa costa, onde se formam as ondas, é recorrentemente esquecida” (p. 25). Como a sabedoria antiga dos pescadores, a dos surfistas de agora também tem sido desprezada pelos decisores. Este livro — e certamente a exposição que lhe corresponde — demonstra que assim não deve ser.

Nesta segunda e ampliada edição, O Mar é a Nossa Terra conta com um texto inicial do igualmente surfista ministro da Cultura Pedro Adão e Silva, que faz o elogio do surf, do autor e do SOS Cabedelo mas omite — com aquele contorcionismo que “a política” certamente lhe ensinou — que o governo a que pertence tarda (desde 2010!…) em dar resolução à proposta de Miguel Figueira para a “permanente bombagem mecânica de areias que permitam restabelecer em grande parte a dinâmica dos sedimentos que alimentam a costa”, um bypass semelhante ao criado em 2001 na barra do rio Tweed australiano (que o arquiteto visitou), fazendo de Snapper Rocks a onda que recebe a primeira etapa da World Surfing League.

Pedro Bandeira diz claramente, algumas páginas adiante: “Apesar das garantias do Governo sobre a construção do bypass, ainda não há certezas sobre a data da sua execução” (p. 8). Contundente, o próprio Miguel Figueira dirá à p. 90: “Para os Institutos Portuários o surf não existe, para o Instituto do Desporto o desenvolvimento da modalidade faz-se com o bed and breakfast e para a Agência Portuguesa do Ambiente faz-se com apoios de praia.” Em contrapartida, frases de efeito de Adão e Silva — “o prazer do surfista não vira as costas ao compromisso com o bem comum, e a intimidade com a natureza é uma forma de construir cultura” (p. 4) ou “a arquitetura do [sic] Miguel Figueira é sensível às necessidades do território que habitamos, porque sabe que a relação entre as pessoas e o espaço é um elemento nuclear da nossa vida em comum, uma questão de cidadania” (p. 5) — trazem à memória aquela proclamação da ministra Mariana Vieira da Silva aquando dos tremendos incêndios que há um ano devastaram o pouco protegido parque natural da Serra da Estrela: “Vai ficar melhor do que estava.” Faltou-lhe dizer como e quando, e quando irá verificar pessoalmente o que o governo a que por vezes preside efetivamente fez por isso. Está praticamente tudo na mesma, mas o disparo contínuo de anúncios mediáticos de efeito populista serve, uma vez mais, de biombo útil à governação medíocre, distraindo consecutivamente o devido escrutínio público. Aqui sucede o mesmo: exibição exuberante de empatia, mas falha de consequências. E um título, “Sob o asfalto, a praia”, que convoca o Maio de 1968 em Paris e os seus delírios estridentes, talvez para júbilo de alguns, todos ainda hoje incautos, certamente.

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