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“Empresas não podem continuar a lucrar às custas de todos nós”, diz Colin Mayer, ex-reitor em Oxford – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Abr 10, 2024

As empresas, de um modo geral, têm usado as chamadas metas de ESG para mostrar ao mundo que desenvolvem o negócio com respeito pelo meio-ambiente (o E de environment), pela coesão social (o S de social) e com práticas empresariais responsáveis (o G de governance). Mas Colin Mayer, ex-reitor da escola de gestão de Oxford, argumenta que estas metas ESG são “vagas”, “complexas” e difíceis de aplicar e escrutinar. Por isso, são apenas “uma infeliz distração” face àquilo que as empresas têm realmente de fazer, que é “não lucrar às nossas custas“.

Colin Mayer deu uma entrevista ao Observador poucos dias antes de viajar até Lisboa para apresentar, nesta sexta-feira, o seu novo livro no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG). “Capitalism and Crises: How to Fix Them” é a mais recente obra do professor emérito da Blavatnik School of Government e da Saïd Business School (Universidade de Oxford), da qual é fundador e ex-reitor. É neste livro que o académico explica como salvar o capitalismo, modelo do qual é defensor acérrimo. Como? Com ideias que, garante, não são “apenas utopias fantasiosas de um académico”.

O seu novo livro é sobre o capitalismo e sobre as crises que assolaram os países onde este sistema existe. Reconhece que essas crises abalaram o nível de confiança de muitas pessoas em relação ao próprio capitalismo como modelo, mas defende que as pessoas devem acreditar no capitalismo?
Com certeza que as pessoas devem acreditar no capitalismo. Assim que este sistema surgiu, em meados do século XIX, quando as empresas passaram a ser livres de se constituir como entidades privadas (e não restringidas pelo Estado, como acontecia anteriormente), a partir desse momento o mundo em geral desfrutou de uma imensa prosperidade e alívio da pobreza. No entanto, reconhecemos cada vez mais que o capitalismo também tem sido uma causa crescente de degradação ambiental, perda de biodiversidade, desigualdade e exclusão social.

É possível fazer melhor?
O problema é que as empresas, quando trabalham para gerar lucro para si mesmas, para os seus investidores, têm uma ideia errada do que é esse lucro e de onde deve vir esse lucro. Chegámos a um ponto em que temos crises reais e crises crescentes porque os objetivos das empresas se tornaram cada vez mais contrários aos nossos interesses enquanto indivíduos, enquanto sociedade e para o próprio mundo natural. E estamos a atingir os limites do que o meio-ambiente pode tolerar, bem como o limite daquilo que as sociedades podem tolerar em termos de desigualdade e exclusão social. E estamos, também, a atingir os limites daquilo que os sistemas democráticos em todo o mundo conseguem tolerar.

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No seu livro diz que as empresas apresentam os seus resultados – anualmente, por exemplo – mas esses resultados apenas representam as receitas subtraídas dos custos, como custos com matérias-primas e salariais. Defende que essa é uma forma deficiente de avaliar os resultados de uma empresa, porque há custos que estão omissos. É assim?
Sim, defendo que a forma tradicional de avaliar o lucro, como sendo simplesmente a diferença entre as receitas e os custos (operacionais e de capital), não tem em conta o impacto que as empresas têm sobre os outros. Por exemplo, o impacto que têm quando pagam aos seus funcionários um valor abaixo de um salário digno ou pagam aos fornecedores um preço que nada tem de comércio justo. Ou quando as empresas poluem o ambiente ou emitem gases que provocam o aquecimento global. Se as empresas não se responsabilizarem pelos custos de evitar esses problemas – isto é, aquilo que têm de gastar para limpar a sujeira que fazem – então não estão a apresentar os seus verdadeiros custos e os seus verdadeiros lucros. Não são verdadeiros lucros quando não são deduzidos os custos de evitar os impactos negativos que muitas empresas estão a ter, causando degradação ambiental, perda de biodiversidade, desigualdade, exclusão social e desconfiança nas instituições.

Como é que se estimam esses custos?
Fazendo aquilo que as empresas bem geridas fazem, que é identificar o impacto que estão a ter nos seus colaboradores, nos seus fornecedores, no ambiente – o primeiro passo é reconhecer esses impactos negativos e, depois, admitir que têm uma responsabilidade de evitar ou mitigar esses problemas. Os custos a que me refiro são os custos que as empresas devem ter na mitigação dos impactos negativos.



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