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Centeno foi um dos vários membros do BCE que pediram baixa de juros já. Mas descida só virá em junho – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Abr 11, 2024

“Alguns membros” do Conselho do BCE acham que a autoridade monetária da zona euro já estava, na reunião desta quinta-feira, em condições de baixar juros, revelou a presidente do BCE. Um deles foi Mário Centeno, sabe o Observador.não terão sido só alguns, mas sim vários, de acordo com a informação recolhida. No final, porém, esses membros acabaram por aceitar a decisão de não mexer nas taxas de juro – mas, em troca, tiveram um compromisso claro (e oficial) de que é muito provável que a baixa aconteça em junho. Porém, o que vai acontecer no resto do ano é uma incógnita e, muito por culpa dos EUA, cada vez se antecipam menos cortes da taxa de juro até ao fim do ano.

Questionada por uma jornalista na conferência de imprensa, relativamente à tensão que se sabe ser cada vez maior no seio do Conselho do BCE, Christine Lagarde reconheceu que a decisão de não baixar os juros não foi unânime. “Para vos dizer a verdade, alguns membros disseram sentir-se suficientemente confiantes, a partir dos dados já existentes“, para que o BCE pudesse já ter baixado (nesta quinta-feira) as taxas de juro.

Christine Lagarde não revelou quais foram esses membros como, de resto, nunca faz. Mas o Observador sabe que, em linha com as posições assumidas nos últimos meses pelo representante do Banco de Portugal, Mário Centeno foi um destes participantes da reunião em Frankfurt que mostraram ter uma visão diferente da maioritária. Ao contrário de outros bancos, como o Banco de Inglaterra, no BCE não há uma votação final individual – o que acontece é que, depois de manifestadas as posições individuais, toma-se uma decisão que é sempre colegial e comum a todos.

Foi isso que aconteceu, disse Christine Lagarde. Apesar da posição manifestada por esses “alguns membros”, gerou-se depois um “consenso” para que fosse esta a decisão tomada, isto é, a manutenção dos juros inalterados em 4%. A moeda de troca foi uma frase-chave que foi introduzida no comunicado final. Essa frase é longa e Christine Lagarde leu-a lentamente (e releu-a mais lentamente ainda), porque quis deixar bem claro aquilo que o BCE quer ver nas novas projeções económicas (atualizadas trimestralmente) que vão ser divulgadas em junho:

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Se a análise atualizada do Conselho do BCE sobre as expectativas de inflação, as dinâmicas da inflação subjacente [a medida da inflação que exclui energia e produtos não-transformados] e a robustez da transmissão da política monetária aumentar a confiança de que a inflação está a convergir para o objetivo de uma forma sustentada, então será adequado reduzir o atual nível de restritividade da política monetária”, pôde ler-se no comunicado final.

O BCE tem como missão manter a inflação em 2% no médio prazo e, embora essa seja uma meta associada à inflação global na economia da zona euro, a francesa sublinha, na segunda parte dessa frase, que será preciso continuar a ver uma dinâmica favorável na inflação subjacente porque é essa que, por excluir itens mais voláteis, espelha melhor a forma como as pressões inflacionistas se estão (ou não) a enraizar na economia – e se, portanto, precisam (ou não) de ser combatidas pelo banco central.

Até a Alemanha já aceita cortar juros em junho, mas os EUA vieram perturbar planos do BCE

Os últimos dados do Eurostat para a inflação na zona euro mostram que o ritmo de subida dos preços (gerais) abrandou inesperadamente para 2,4% em março, duas décimas abaixo dos 2,6% que tinham sido registados para fevereiro e que os analistas previam que se repetissem em março. A tal inflação subjacente também baixou – de 3,1% para 2,9% –, um valor ainda elevado mas que está a mover-se no sentido correto. Aliás, Lagarde deixou claro que o BCE “não precisa de ver tudo a descer para 2%” para só depois baixar os juros, basta que haja uma expectativa fundada de que o indicador está a caminhar nesse sentido.

Finalmente, o terceiro ponto desta complexa frase que marcou o comunicado e a conferência de imprensa do BCE: a transmissão da política monetária significa aquilo que o banco central entende como sendo o impacto concreto que as taxas de juro nos níveis atuais estão a ter na procura económica e na procura por crédito. “As condições financeiras continuam restritivas e os aumentos das taxas de juro anteriores continuam a pesar na procura, o que está a ajudar a travar a inflação”, pôde ler-se no comunicado do BCE.

A este respeito, a própria Christine Lagarde haveria de reconhecer, na conferência de imprensa, que os “riscos para o crescimento económico pendem para o lado negativo“. Por outras palavras, isso significa que são maiores os riscos de que a economia cresça menos do que o esperado do que mais do que o esperado. O BCE voltou a admitir, aliás, que além dos riscos geopolíticos, um dos fatores que podem levar a economia a crescer menos do que o previsto é o efeito das subidas de taxas de juro decididas pelo próprio banco central.

“Estamos a ver um declínio na inflação que é reconfortante para nós“, afirmou Christine Lagarde, perto do final da conferência de imprensa desta quinta-feira. Minutos antes, tinha dado vários sinais de que há condições para baixar os juros (e apenas uma indicação em sentido contrário).

A presidente do BCE disse que “a maior parte das medidas da inflação subjacente estão a diminuir, o crescimento dos salários está a moderar-se gradualmente e as empresas estão a absorver parte do aumento dos custos laborais nos seus lucros“.

Ou seja, Lagarde dá a entender que está menos preocupada com o risco de os salários subirem demasiado (face ao crescimento da produtividade) e, também, menos preocupada com outro risco que preocupava a francesa, isto é, o perigo de as empresas repercutirem todos esses aumentos salariais nos preços (em vez de sacrificarem as suas margens). Se as empresas não o fizessem, isso significaria preços mais elevados que teriam de ser combatidos por taxas de juro elevadas por mais tempo, já avisou Lagarde várias vezes.

Mas, como isso, aos olhos do BCE, não estará a acontecer, aquilo que ainda preocupa o banco central é que “as pressões internas sobre os preços são fortes e mantêm a inflação dos preços dos serviços elevada“. Mais do que os preços dos bens, são os preços dos serviços que estão a impedir uma descida mais rápida da inflação.

Margens de lucro das empresas ameaçam “copo meio cheio” que Centeno vê na economia

Só faltou descer mesmo os juros“, diz um analista do Commerzbank, Jörg Kramer, que não esperava tanta clareza por parte do BCE no pré-anúncio de uma descida em junho. Nos termos em que as coisas foram postas, “teria de acontecer muita coisa inesperada para que o corte de juros em junho não se confirmasse”, acrescenta o analista.

Para Jörg Kramer, um alemão, “esta é uma posição com algum risco” porque na sua leitura a inflação ainda não está controlada “nem nos EUA nem na zona euro”. Depois de ter sido revelado que a inflação nos EUA saltou para 3,5%, basicamente anulando a hipótese de a Reserva Federal baixar juros em junho, Christine Lagarde reconheceu que “tudo o que acontece [na economia mundial] interessa ao BCE” e o impacto das próximas decisões da Reserva Federal norte-americana “fará parte das projeções a divulgar em junho” (e que irão sustentar a decisão que será tomada).

Para o BCE, o atraso dos EUA na descida de juros é um inconveniente, já que coloca pressão negativa sobre a cotação do euro – estimulando, por essa via, a inflação. Isto porque muitos produtos, como o petróleo e seus derivados, são comprados em dólares. Mas é cada vez menos provável que os EUA acompanhem a zona euro na descida de juros – aliás, o Deutsche Bank apostou, esta tarde, que nos EUA os juros só vão descer uma única vez até ao final do ano… em dezembro.

“Alguns membros” do Conselho do BCE quiseram baixar juros já nesta reunião

Lagarde recusou “especular sobre aquilo que outros bancos centrais vão ou não vão decidir”. Porém, “os EUA são uma economia muito grande, um centro financeiro importante, por isso todas essas questões acabam por estar presentes nas projeções” que vão ser reveladas em junho e nos trimestres seguintes. Este não é o tema mais confortável para Lagarde, pelo que a resposta foi evasiva.

Apesar do risco de criar uma divergência de políticas entre a zona euro e os EUA, as fontes que falaram com a agência Reuters após a conferência de imprensa de Lagarde reiteraram que “continua a ser provável que os juros desçam em junho”. Deverá ser um corte de 25 pontos-base, para levar a taxa dos depósitos (a mais importante para a política monetária neste momento) para 3,75%.

A questão é o que acontece depois de junho. “Não estamos a comprometer-nos, antecipadamente, com uma trajetória de taxas de juro”, afirmou a presidente do BCE, implicitamente indicando que, embora possa ser provável uma descida em junho (se se cumprirem os critérios enunciados na frase-chave do comunicado), não se pode assumir que depois de junho haverá mais descidas da taxa de juro.

O BCE vai continuar a “determinar a sua política com base nos dados que vão chegando”, repetiu Christine Lagarde. Filipe Garcia, economista do IMF – Informação de Mercados Financeiros, salienta que “ao longos dos últimos meses, o mercado tem vindo a incorporar nas suas expectativas que o número de cortes de juros este ano será menor do que aquilo que se chegou a prever em dezembro“.

Se no final do ano passado se acreditava, nos mercados financeiros, que o BCE poderia baixar os juros sete vezes (o que significaria 175 pontos-base, ou uma taxa de 2,25% no final de 2024), agora a expectativa dos analistas é que não serão feitos mais do que três cortes – ou seja, levando a taxa de juro a fechar o ano em 3,25%.

“A resiliência do mercado laboral, dos preços dos serviços e a subida dos salários está a obrigar a uma reavaliação de expectativas dos dois lados do Atlântico”, afirma o especialista do IMF, notando que “o comportamento das Euribor tem sido coerente com este adaptar de expectativas, ou seja, as Euribor vão recuando, mas a um ritmo lento”.

Neste momento, o mercado está a prever aproximadamente, para o final de junho, taxas Euribor a três, seis e 12 meses a 3,70%, 3,65% e 3,50%. Para o final do ano, as expectativas são de 3,20%, 3,18% e 3,15%, também respetivamente.



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