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Os Autechre desligaram as luzes para que víssemos um futuro eletrónico – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Abr 13, 2024

O futuro, por defeito, demora um pouco a chegar a Portugal. Às vezes, tanto tempo, que se deixa de acreditar que alguma vez irá acontecer. Desde o início da década de 1990, os Autechre criaram uma música eletrónica que era tão exigente quanto revolucionária. ambos os aspetos combinados geravam uma gratificação rara, era uma partilha de uma ideia de futuro, aquele andamento da arte que o passo do presente não consegue acompanhar. A Warp — editora que lançou todos os discos dos Autechre até agora — mostrava como nenhuma outra nessa década como o futuro tão abstrato conseguia ser luminoso e cheio de provocação, de tal maneira que incitava a experimentar, a abrir, de certa forma, a cabeça. Até esta sexta-feira, 12 de abril de 2024, os Autechre nunca tinham atuado em Portugal.

Passaram-se mais de trinta anos desde que Rob Brown e Sean Booth formaram os Autechre em 1987 e até mais de trinta anos desde o álbum de estreia, Incunabula (1993). Nesses mais de trinta anos, diferentes cabeças formaram-se a ouvir Autechre. Era de esperar que nos dois concertos da Culturgest em Lisboa estivesse lá toda a gente de um certo Portugal. E estava. Representando diferentes idades, outras tantas gerações e modos de viver a música, para alguns não seria uma total novidade, para outros seria uma estreia fora do contexto revolucionário dos 1990s. Para uma grande maioria, foi a primeira vez.

No dia em que o concerto foi anunciado, os bilhetes esgotaram em poucas horas. Alguns dias depois foi confirmada um segunda atuação, que aconteceria no mesmo dia, mas mais tarde, pelas 23h15 (o primeiro foi marcado para as 21h). Assistimos ao primeiro, sala cheia, uma urgência tremenda a partir de certa altura, para sentar as últimas pessoas porque o concerto estava prestes a começar. E quando ainda se estava a assimilar a ideia de “estamos prontos”, as luzes apagaram-se, um som austero instalou-se a interromper conversas e a marcar o início de um outro diálogo, totalmente distinto.

O som era um ato contínuo, a presença constante de algo que acontece numa outra dimensão mas que se revelou, se fez ouvir, segundo a vontade de Rob Brown e Sean Booth. As últimas pessoas ainda estavam a entrar no auditório e os músicos já estavam em palco, por trás de uma estrutura que recomendava distância e oferecia pouca visibilidade, alimentando o mistério. Estavam em palco, sim, mas evitando uma pré-glória da entrada e dos aplausos. Estavam lá como se nada fosse, prontos para abrir um certo portal.

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Parte desta atitude faz parte do atuação. É a conceção de “espectáculo” dos Autechre, que querem que o público se concentre apenas no som, na música. É de evitar qualquer distração, qualquer sensação que nos aproxime de um concerto normal, porque a ideia é que não seja isso. Em menos de nada, quase sem darmos conta, desligam-se as luzes, escuridão quase total, procuramos a adaptação possível e ouve-se Autechre, sem introdução, sem aviso, em menos de um segundo entramos numa ideia de ato contínuo, com algo que está acontecer e de que agora também fazemos parte.

Os que ainda procuram os lugares fazem-no com as luzes dos telemóveis. Ferramenta aparentemente banal, que criou um certo desencontro com a experiência mas, em simultâneo, reforçou o desnorte do momento, mostrou diferenças, revelou contrastes entre o mundo real e aquela galáxia densa e abstrata, a evolução de uma massa sonora pesada, feita a partir dos elementos base daquilo que se reconhece nos Autechre pós-2000: menos harmonia, menos ângulos, a sensação de um corpo que está a desenvolver-se ao nosso redor, que desafia fórmulas de outros géneros, seja o electro, o hip hop ou os sintetizadores de Vangelis. Não há descanso, é intenso em quase toda a duração (pouco mais de sessenta minutos).

A escuridão quase total cumpre o objetivo. Desfazemos rapidamente a ideia de concerto e entramos na sensação-experiência, seja com os olhos fechados ou com eles abertos, vendo dois corpos semi-iluminados no palco, parecem projeções fantasmagóricas que se movem sem que consigamos realmente desvendar o que estão a fazer. A escuridão quase-total permite que o som se experiencie sem preconceitos e sem desvios. Dificilmente a ideia da música enquanto experiência, enquanto matéria concreta, se assume desta forma. Uma atitude que é também feita de uma boa fanfarronice: sim, os Autechre conseguem colocar 700 almas sentadas em silêncio, ecrãs desligados e nos bolsos, numa dimensão que tem tanto de individual como de comunal. E fizeram-no duas vezes seguidas.

A música dos Autechre é uma ideia de futuro que congrega. Como uns Kraftwerk com outra escala e outras intenções, mas com a mesma partilha de novidade enquanto corpo estranho. O único senão foi o som da sala. Pelos relatos ouvidos, este foi um daqueles concertos em que o lugar importava. Um pouco mais para o lado e perdia-se um outro detalhe e com frequência escutámos uma massa de som homogénea e abafada que não era a ideia inicial.

Ao contrário do início, terminou com um semi-aviso, um rápido contraste no som que ofereceu uns parcos minutos de harmonia que permitiram voltar para a realidade sem grande estrondo. Como quem pretende suavizar a aterragem de regresso à realidade. As luzes acenderam-se ainda com aplausos, os músicos saíram discretamente do palco. Fim.



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