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Palácio Nacional de Sintra – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Mai 15, 2024

Numa observação à distância do Palácio Nacional de Sintra saltam de imediato à vista dois pormenores: as enormes chaminés cónicas que se elevam a partir da respetiva cozinha e o facto de o Palácio parecer um aglomerado de edifícios sobrepostos em diferentes níveis, como se formassem um vilarejo dentro da vila que o acolhe.

Este segundo pormenor revela-nos um fator importante sobre a sua origem: o Palácio não é apenas um edifício, mas vários, construídos em diferentes épocas. Não se sabe, ao certo, quando é que surgiu o primeiro. Sabe-se, isso sim, que remonta ao período de domínio árabe, que terminou em 1147, com a rendição dos almorávidas de Sintra. Seria naquele local, denominado Chão de Oliva, numa estrutura cujos vestígios ainda estão por encontrar, que os governadores mouros teriam a sua residência.

A primeira menção deste edificado num documento oficial data do reinado de D. Dinis. Nele, o rei ordenava que os muçulmanos libertos de Colares zelassem pela sua manutenção. D. Dinis concedeu-o, bem como à vila de Sintra, à sua mulher Isabel de Aragão, que ficaria popularmente conhecida como Rainha Santa Isabel. A prática tornou-se tradição entre os reis subsequentes – faria parte do património designado Casa das Rainhas, que lhes permitia ter rendimento próprio e pessoas que dela dependiam.

Ao longo dos séculos seguintes, o Palácio foi habitado e ampliado pelos reis e rainhas vigentes, incorporando estilos das épocas correspondentes, o que explica a panóplia de referências arquitetónicas que lá podemos encontrar, do gótico ao manuelino, com destaque, também, para o revestimento em azulejos mudéjares ou hispano-mouriscos.

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As famosas chaminés cónicas, com 33 metros de altura, que marcam a silhueta do Palácio e a paisagem da vila de Sintra, surgiram durante o reinado de D. João I, responsável pela construção de um novo Paço Real, cheio de opulência – de que é exemplo a Sala dos Cisnes – e monumentalidade, bem patente na cozinha, onde se serviam as centenas de pessoas da corte e se preparavam banquetes com o produto das caçadas reais. Essas caçadas foram uma das razões da paixão de muitos monarcas por Sintra, onde podiam – sem se afastarem muito de Lisboa, cada vez mais o centro de decisão nacional – desfrutar de um local abundante em espécies de maior e menor porte, dos javalis às perdizes.

Já no século XVI, D. Manuel I decorou as salas do Palácio com azulejos hispano-mouriscos importados de Sevilha. Edificou a Ala Nascente e a Sala dos Brasões, onde inscreveu os brasões das famílias mais importantes da nobreza, com o seu ao centro, em grande destaque. O seu sucessor, D. João III, prosseguiu os trabalhos de engrandecimento do Palácio, construindo um novo Paço. Ao longo deste século, o palácio continuou a receber as mais altas figuras do Estado, tendo sido um dos espaços favoritos de D. Sebastião.

No século seguinte, foi no Palácio Nacional de Sintra que D. Afonso VI, afastado do trono pelo seu irmão D. Pedro, passou, encarcerado, os últimos nove anos de vida. Morreu no quarto que ainda hoje tem o seu nome e cujo pavimento cerâmico, com múltiplos padrões, é dos mais antigos de todo o edifício.

O terramoto de 1755 deixou marcas no Palácio, que foi, posteriormente, restaurado. A Sala dos Cisnes  sofreu danos e foi recuperada já na década de 1780. Poderá ter sido também o terramoto o responsável pela queda da torre que se elevava sobre a Sala dos Árabes  – sem certezas, porém, dado que o último registo oficial da torre datava de 1508.

Nos últimos anos da monarquia e nos primeiros da República, o Palácio continuou a ser alvo de obras de melhoramento e redecoração, com o objetivo de adequá-lo às necessidades da Família Real, dotando-o de maiores níveis de conforto. Durante o Estado Novo, entre as décadas de 1930 e 1940, há novas intervenções no Palácio com vista à sua utilização como instrumento da propaganda política, com destaque para o trabalho conduzido pelo arquiteto Raúl Lino, cuja teorização do conceito da “Casa Portuguesa” marcou a época.

Foi, aliás, nessa época que o Palácio abriu ao público, tendo vindo a tornar-se uma das mais importantes atrações da vila de Sintra e da sua Paisagem Cultural, Património Mundial da Unesco desde 1995. A Parques de Sintra assumiu a sua gestão em 2012 e em 2013, passou a constar da Rede de Residências Reais Europeias.

Os seus mais de 1000 anos de história continuam a ser estudados em permanência. Recentemente, identificou-se que a Sala das Galés terá funcionado como galeria, a única galeria palatina em Portugal do século XVI. E não só, no final de 2022, a equipa de investigadores revelou a existência da chamada Casa do Conselho de Estado, que terá funcionado no Palácio entre os séculos XVI e XVIII – ficando provado que mais do que mera residência, o espaço também acolheu instituições tão importantes para a nação como os tribunais superiores, e, mais tarde, reuniões de Conselho de Estado.

Para ficar a saber mais histórias sobre o Palácio Nacional de Sintra, oiça aqui o episódio dedicado no podcast Sintra em Cinco Séculos, com os convidados António Nunes Pereira (diretor dos Palácios geridos pela Parques de Sintra), Bruno Martinho (conservador da Parques de Sintra / Palácio Nacional de Sintra) e Ana Sanches (arquiteta paisagista, responsável pelos jardins do Palácio Nacional de Sintra).



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