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Uma rua internacional no meio de nenhures em Pedrógão Grande – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Jun 7, 2024

Na aldeia da Lapa, Pedrógão Grande — onde este ano se vai assinalar o 10 de junho —, a Rua dos Emigrantes é hoje a de imigrantes, trabalhadores ou reformados, numa multiplicidade de nacionalidades que se repete noutros locais deste concelho e em Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos.

“É muito internacional”, afirmou à agência Lusa Jochen Bangert, alemão na casa dos 50 anos, ou José, por ser mais fácil de pronunciar para os portugueses, junto à casa que ergueu das ruínas naquela rua, na freguesia da Graça.

Foi através de um anúncio numa revista alemã que o designer de conteúdos para a internet encontrou, há cerca de 20 anos, o lugar onde viria a reconstruir a sua morada.

“O coração sempre disse que era aqui”, declarou Jochen Bangert, explicando que aqui é onde vive quase todo o ano, há quase cinco.

Desfiando as qualidades do lugar, também morada de outros estrangeiros de diversas proveniências, da Europa, como ele, mas também de África, da Ásia ou da América, o alemão não resistiu a comentar a burocracia nacional: “Às vezes, os caminhos são muito complicados, outras vezes é sempre a andar, rápido e fácil”.

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Num anexo da habitação, um azulejo na parede com a inscrição “Se bebes para esquecer paga antes de beber” indicia que o cidadão alemão se tem aportuguesado.

“Muito típico, não é?”, perguntou, ao mesmo tempo que mostrou a sua portuguesa “FAMEL”, a moto que um amigo recuperou.

A poucos metros, mora o casal Chris e Diana Mitchell, ele britânico de 46 anos, ela colombiana de 41.

“Vi no Google Maps”, afirmou Chris Mitchell, quando questionado sobre a escolha da Lapa, acrescentando a proximidade com a água (rio Zêzere).

Construtor civil, o britânico, que recuperou a casa onde o casal mora e prepara-se para fazer o mesmo a um imóvel em ruínas, não regateia elogios à “comunidade simpática”, para acrescentar que o mais difícil no país “é o SEF [Serviço de Estrangeiros Portugueses], agora AIMA [Agência para a Integração, Migrações e Asilo]”.

O presidente da Junta de Freguesia da Graça, Custódio Rosa, explicou que na Lapa apenas reside uma portuguesa, numa aldeia que “nem uma dúzia de casas tem”.

“Em quase todas as nossas aldeias [33, distribuídas por 30 quilómetros quadrados], há estrangeiros, de várias nacionalidades, mais trabalhadores remotos e reformados”, que estão a repovoar aos poucos, adiantou.

Custódio Rosa lamentou, contudo, que o recenseamento não faça parte das opções dos estrangeiros, pois as transferências financeiras para as autarquias são tanto maiores quanto maior for a população.

Segundo o autarca, a freguesia tinha 614 eleitores em 2022. “Estrangeiros recenseados três ou quatro”, referiu, para assinalar que as reivindicações, como “estradas alcatroadas ou luz ao pé de casa, são iguais às dos portugueses”.

No concelho de Pedrógão Grande, residiam 662 estrangeiros em 2022, cerca de um quinto da população, que era nos Censos de 2021 de 3.390 pessoas, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Quer neste município, quer em Castanheira de Pera ou Figueiró dos Vinhos, o número de estrangeiros tem aumentado. A maior parte tem origem no Reino Unido e Irlanda do Norte, ainda segundo o INE.

Os norte-americanos Bill Mauro, de 60 anos, e Marcus Laurence, de 53, não estão entre as nacionalidades preponderantes nos concelhos do norte do distrito de Leiria, mas aqui assentaram arraiais após dois anos a viverem em Lisboa “num apartamento de 55 metros quadrados” ainda a pandemia de Covid-19 era uma realidade.

Outros países europeus estiveram na equação do casal de reformados da Pensilvânia, mas ganhou Portugal.

Clima, segurança, sistema de saúde, custo de vida e país respeitador de uniões entre pessoas do mesmo sexo foram as razões.

Apesar de ter gostado muito de Lisboa, o casal sentiu na capital a ausência da tranquilidade.

Formulada nova equação, eis que surge Salgueiro da Lomba, na freguesia da Aguda, Figueiró dos Vinhos.

“Queríamos viver numa zona parecida com a Pensilvânia, com rios, montanhas. Muito importante para nós era ter cuidados de saúde perto”, prosseguiram. O concelho é servido pelos hospitais de Coimbra.

Outro fator era a acessibilidade a Lisboa e ao Porto, e o Centro do país passou a ser a solução, mesmo com o café a distar três quilómetros ou o supermercado 12, porque a preferência são os mercados municipais.

“É perfeito para nós”, asseguraram.

Os amigos dizem-lhes que “moram no cu de Judas”, mas o casal, já fluente na língua portuguesa, contrapõe com a tranquilidade e a natureza, que descobrem em moto 4, pelas Aldeias do Xisto, por exemplo.

Da vizinhança, onde se contam portugueses e outros estrangeiros, destacam as relações, cimentadas também nas trocas. O casal levou um bolo de banana a uma vizinha, a vizinha trouxe-lhe um naperão.

Ainda em Figueiró dos Vinhos, mas na Arega, Joanna e Aran Patinkin, de 60 a 70 anos respetivamente, devolveram vida a um imóvel em ruínas, onde, no seu interior, cresciam árvores e até viviam cabras, que ganhou o nome de Quinta do Passal e alojamento local.

“Portugal é um ponto central. Está a seis horas dos Estados Unidos e a cinco de Telavive [Israel]”, onde se dividem os filhos de cada um, referiu a britânica Joanna Patinkin.

A primeira vez que vieram a Portugal foi em 2019, quando Aran, israelista-americano, foi fazer um documentário a Castelo Branco.

Quando se decidiram ficar, numa incursão por Oleiros compraram três propriedades em ruínas, “mas era muito complicado para reconstruir” devido a medidas restritivas decorrentes dos incêndios.

“Não entendíamos a língua, nem as restrições. E as leis estão sempre a mudar”, disse Joanna.

O casal decidiu depois que nova compra seria mais perto de um aglomerado urbano, para estar mais protegida.

“Procurámos, procurámos e procurámos, e, finalmente, encontrámos”, adiantou. Mas não foi amor à primeira vista. Só à terceira ou quarta vez, quando abriram uma janela do imóvel e se depararam com a paisagem, é que se confirmou.

Seguiu-se a reconstrução, destacando o papel da agora presidente da Junta, Cristina Furtado, do seu marido, construtor, e de toda uma equipa que, “com generosidade, paciência e paixão”, fizeram nascer a Quinta do Passal, sem esquecer toda a aldeia, onde as “pessoas foram tão generosas”.

À Lusa, Cristina Furtado lembrou que outros familiares ajudaram nesta empreitada, localizada ao lado da Igreja Paroquial, que hoje dá emprego a várias pessoas e visibilidade à própria aldeia.

Joanna Patinkin salientou que tiveram “muita sorte neste ‘casamento’”, num “lugar lindo”, onde destacam a paisagem, o silêncio e as pessoas.

Na Arega, o casal de judeus é tudo menos estrangeiro. “Não nos sentimos estrangeiros. Sentimo-nos bem”.

As comemorações do Dia de Portugal centram-se este ano em Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande, concelhos fustigados pelos incêndios de junho de 2017, de que resultaram 66 mortos e 253 feridos, além da destruição de casas, empresas e floresta.

Na região afetada pelos incêndios de Pedrógão Grande, os jovens encontram qualidade de vida, mas falta “tudo o resto”. Até há emprego, mas em áreas que não lhes interessam, o mercado de arrendamento “não existe” e há pouca vida social.

São poucos os que ficam e ainda menos aqueles que, mesmo decidindo ficar, não pensam em seguir o mesmo caminho dos seus amigos. Rafael Almeida, que vive na vila de Figueiró dos Vinhos, o maior concelho dos três mais afetados pelos fogos de junho de 2017, apenas se lembra de um jovem do seu ano, 1994, que continua a viver por ali, como ele.

O realizador de cinema de 30 anos montou a sua produtora na vila onde nasceu depois de terminar o curso na Covilhã. Faz sobretudo vídeos institucionais e corporativos — o trabalho é tanto que já há algum tempo que adia projetos artísticos, depois de ter passado pelo “Short Film Corner” do festival de Cannes.

“É fácil empreender aqui, termos o nosso próprio negócio e conseguirmos ser bem-sucedidos em várias áreas. Mas falta tudo o resto. A parte de estar aqui e ganhar dinheiro não é o maior problema”, diz à agência Lusa Rafael Almeida.

Para o jovem cineasta, é esse “resto” — que é muita coisa — que leva a que hoje só se lembre de mais um como ele a viver em Figueiró dos Vinhos de “três ou quatro turmas” que havia no secundário.

Mercado de arrendamento inexistente, falta de ofertas de emprego qualificado ou ausência de espaços para socializar são alguns dos problemas que Rafael Almeida elenca sem grande esforço. A própria falta de jovens faz com que os que fiquem queiram sair.

“Eu estou com a minha namorada, mas se eu estivesse sozinho já não estava aqui, de certeza. Porquê? Porque estaria completamente solitário e andaria doido”.

Por isso mesmo, brinca, o território onde vive “é ótimo para antissociais”.

Se, em Figueiró dos Vinhos, Rafael diz não encontrar qualquer sítio aberto à noite para beber um copo, em Castanheira de Pera, o município do distrito de Leiria com maior índice de envelhecimento, Patrícia Martins socorre-se de um café numa aldeia que fica aberto até mais tarde para estar com os amigos à noite.

“De resto, não há mais nada”, conta a jovem de 26 anos.

Chegou a viver dois anos em Leiria, depois de acabar o curso em jornalismo e comunicação em Coimbra, mas não gostou da experiência de viver numa cidade e, tendo conseguido um emprego na sua área na empresa municipal Prazilândia, decidiu regressar.

“Sempre fui muito próxima da natureza e gosto do sentimento de comunidade que numa cidade não existe”.

Patrícia admite que é uma privilegiada, perante o contexto de Castanheira de Pera — os seus amigos mais próximos ainda vivem no concelho e conseguiu um apartamento arrendado, uma “raridade” na vila, afirma, considerando que um dos principais desafios no concelho, para além da falta de emprego qualificado, é, “sem dúvida, o acesso à habitação, que não existe”.

Cristiana Fonseca, de 29 anos, que trocou o ensino por uma carreira como agente imobiliária em Figueiró dos Vinhos, confirma.

O mercado de arrendamento também quase não existe, diz, referindo que na imobiliária que tem com mais uma sócia lembra-se apenas de dois anúncios — um T2 por 420 euros e uma moradia por 950 euros.

“Por estes valores, quem é que vem? São para estrangeiros que procuram um arrendamento de curta duração para conhecer a zona e decidir se investem”, diz Cristiana, cujo negócio também se sustenta a partir de imigrantes que têm capital para comprar casas em ruínas e reabilitar.

Apesar dos problemas na habitação, Cristiana Fonseca não trocaria Figueiró dos Vinhos por outro concelho e imagina-se a continuar por ali, próxima da família e com uma qualidade de vida que acredita que não teria numa cidade do litoral.

“Eu só preciso de três minutos para ir de casa para o trabalho”.

Mas se falta habitação, o maior problema será mesmo o tipo de emprego que a região tem para oferecer, aponta Cristiana.

Quando Vasco Gama, de 23 anos, trocou Castanheira de Pera por Lisboa para se licenciar em relações internacionais sabia que provavelmente seria uma ida sem retorno.

“Muito dificilmente, depois da licenciatura, conseguiria arranjar emprego na minha área naquela zona”, conta o jovem que trabalha agora no setor bancário na capital.

“Em Castanheira, há um grande choque de realidade entre o inverno, em que a partir das 20h00 não se vê nem vida nem carros na vila, e o verão, em que recebemos milhares de turistas na Praia das Rocas”, conta o jovem, cujos pais têm um restaurante na vila e também sentem a sazonalidade.

João Cláudio Maria, de 28 anos, não esconde a sua frustração. Depois de se formar em ciências da comunicação na UBI, tentou, por duas vezes, regressar a Castanheira de Pera, onde esteve sempre envolvido em vários projetos associados à cultura.

Trabalhou na Prazilândia, mas despediu-se no final de 2019, com a perspetiva de ir para Lisboa.

A pandemia chegou e adiou os planos. Em 2022, voltou à empresa municipal, mas foi sol de pouca dura.

“Tinha algumas poupanças e mudei-me para Lisboa”, conta à Lusa o jovem de 28 anos.

Na ótica de João Cláudio Maria, o problema “não é a falta de potencial, até porque a maior parte das coisas estão por fazer”, mas a falta de espaço para os jovens poderem mudar alguma coisa no território.

“É preciso espírito de missão e alguma resiliência”, acrescenta.

O jovem de 28 anos acredita que o poder local na região abstém-se de pensar estrategicamente o território. Fazendo uma analogia com algo que marcou a região nos últimos anos, João Cláudio Maria acredita que só se apagam fogos, “mas não se ordena o território”.

Além da falta de emprego qualificado e apartamentos para alugar, há outras questões. Patrícia não tem médico de família, Rafael precisa de ir a Coimbra para ir ao cinema (apenas Pedrógão Grande tem cinema, uma vez por semana) e todos precisam de ter carta e carro para se deslocarem no concelho.

“Aqui, um miúdo com 18 anos tem de ter logo carta e carro, que senão não se safa”, comenta Rafael.

Se Patrícia acredita que continuará em Castanheira daqui a dez anos, Rafael já não terá tantas certezas quanto ao seu futuro, tendo até já tentado sondar a possibilidade de se mudar para Leiria, mas os preços da habitação esbarraram-lhe o intento.

Por vezes, questiona-se sobre o porquê de continuar. “Se calhar eu estou talvez por um saudosismo, pelas memórias associadas, não sei”.

Mas o amor à terra pode não chegar, quando falta “tudo o resto”. “Não sei até quando vou resistir”, confessa.



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