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Portugal precisa de uma legião estrangeira? – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Set 8, 2023

A Helena Matos e o José Manuel Fernandes lançaram-me a pergunta, que tem surgido ocasionalmente nos últimos anos, e respondo aqui de forma mais sistemática. Portugal tem um problema de recrutamento e retenção de soldados semelhante à maioria dos países ocidentais (e não só, veja-se as dificuldades da Rússia nesta guerra, que pensou poder fazer só com voluntários). Isso resulta de razões conjunturais. Por exemplo, quando a economia cresce há mais alternativas de emprego. Mas também tem causas estruturais, como mudanças demográficas, nomeadamente o envelhecimento da população, bem como alterações nos costumes e expectativas de uma sociedade mais individualista e hedonista. Ser militar é um serviço, se for visto apenas como profissão e remuneração dificilmente será muito atrativa. Será que neste campo de atividade, como noutros, a solução passa por contratar estrangeiros, numa espécie de legião estrangeira lusitana?

Durante boa parte da história não havia uma ligação exclusiva entre nacionalidade e serviço nos exércitos. É verdade que existiu um vínculo entre serviço militar e cidadania nalgumas cidades-estados da Antiguidade, na Grécia ou em Roma. Mas tal não impediu que mesmo esses exércitos tivessem importantes contingentes de auxiliares e aliados constituídos por estrangeiros. O surgimento dos atuais Estados europeus a partir das monarquias romano-bárbaras da Alta Idade Média está intimamente ligada à guerra. Os Estados fizeram a guerra e a guerra fez os Estados. A segurança é a condição de base para uma comunidade política e económica de sucesso, e custa dinheiro, o que implica criar uma administração para cobrar impostos, pagar soldos e gerir a logística. No entanto, até à Revolução Francesa e à generalização do modelo do Estado-Nação liberal ao longo do século XIX pela Europa e Américas, existiam, sobretudo entre as unidades de primeira linha, as tropas mais profissionais, muitos estrangeiros. Um resquício atual dessa tradição é a Guarda Suíça do Vaticano. Mas até ao século XIX havia guardas suíças em vários Estados europeus. O exército de D. Sebastião em Alcácer-Quibir tinha milhares de espanhóis, italianos e tudescos – alemães, austríacos, suíços – e até alguns ingleses católicos, como o famoso Sir Thomas Stukeley que aí morreu. No final do século XVIII os britânicos combateram a independência norte-americana com um exército em que abundavam alemães – sobretudo do Hesse. E o rei Luís XVI teve na sua Guarda Suíça os seus derradeiros e mais leais defensores durante a Revolução Francesa. Só com o triunfo do liberalismo nacionalista, na Europa e no mundo, ao longo dos séculos XIX-XX, se generalizou a ideia de um serviço militar obrigatório de cidadãos. Mas continuaram a existir exceções. A própria França, pioneira da mobilização de cidadãos-soldados, criou, logo em 1831, uma Legião Estrangeira.

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