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A acção mais civilizada é descivilizar – Observador Feijoada

ByEdgar Guerreiro

Set 24, 2023

Segue uma troca conceptual: a floresta deixa de ser a natureza que não conhecemos. A floresta é agora a ciência que cultivámos. O bosque que está em causa já não é o da incursão na natureza selvagem, mas é o mato imenso da tecnologia que desenvolvemos. Logo, a sobrevivência mais urgente não é aquela que precisam pessoas abandonadas em lugares inóspitos do planeta, mas a necessária à maioria que está automaticamente servida dos grandes consolos tecnológicos. Os papéis inverteram-se e a nossa tarefa é salvarmo-nos da civilização.

É facto que éramos primitivos quando tínhamos de sobreviver à floresta construindo casas, cidades e culturas; mas hoje estamos de volta a ser primitivos para sobreviver às casas, cidades e culturas que construímos — são elas as novas selvas e desertos que nos ameaçam. Se antes nos salvámos pela cultura, agora precisamos de nos salvar dela. Precisávamos antes de saber para sobreviver, agora precisamos de uma vida que se livra de todo o saber que acumulámos. Vai safar-se quem se livrar do saber selvático que nos cerca.

Do mesmo modo como somos hoje excessivamente iluminados e precisamos de reaprender o valor das trevas (falei nisto no texto “Uma espécie de manifesto por uma estética cristã do obscuro”), estamos hoje excessivamente cultivados e precisamos de reaprender o valor do primitivo. São condições que só sublinham o paradoxo dos nossos tempos. Ao escrever isto, não sugiro nenhuma fé na natureza. Não encontro na natureza uma mãe nem no nosso suposto livre arbítrio um desígnio familiar. Não creio num regresso a um estado puro que eventualmente produza dentro de nós uma salvação (pelo contrário: o que mais precisamos é de voltar a sentirmo-nos perdidos).

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